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quarta-feira, 7 de março de 2012

CONTO TRADICIONAL INDIANO

Annapurna, a minha mãe é uma deusa
Veena vive em Bombaim, uma grande cidade da Índia, à beira-mar.
A casa onde Veena vive é apenas um barracão com um corredor comprido e muitos quartos, um para cada família. Cada quarto tem cinco passadas de comprimento e três de largura. Para terem mais espaço, o pai acrescentou uma assoalhada entre o chão e o teto, onde, em cima de esteiras, dormem Veena, os irmãos e irmãs, e os pais. Veena tem dois irmãos, Shivaji e Goga, e três irmãs, Shaya, Najma e Rukminidevi. Rukminidevi ainda é bebé e todos lhe chamam Ruki.
Uma corda estendida ao longo do quarto serve para pôr a roupa a secar. Não há armários, por isso estão penduradas nas paredes muitas panelas, conchas, sertãs e outros utensílios. Por debaixo da janela há dois fogareiros e, ao lado, duas prateleiras de madeira com muitas ervas aromáticas, legumes e peixe secos, onde também estão encostados os sacos com o arroz, as lentilhas e os cereais. Está tudo muito limpo e arrumado, porque a mãe é uma Annapurna. Veena tem orgulho na mãe. Ser uma Annapurna não significa apenas ser cozinheira: significa ser uma deusa. A deusa Annapurna é a deusa da alimentação. Há muitas Annapurnas nos barracões, como a mãe de Veena, que cozinham para os empregados têxteis que trabalham na fábrica do Sr. Madanis.
Como o pai está doente há muito tempo e já não pode ir trabalhar para a fábrica, a mãe é a única que sustenta a família. Embora já tenha nove anos, Veena não pode ir à escola. Ela e Shaya, a irmã, têm de ajudar a mãe. Limpar vegetais, moer especiarias e lavar arroz ou lentilhas são coisas que também elas já sabem fazer.
Todos os dias, pelo meio-dia, Veena e a mãe pegam nos sacos e nos cestos, e vão ao mercado. Normalmente, está muito calor, mas a mãe não pode ir noutra altura. Os comerciantes, indolentes, descansam à sombra das suas lojas, bancas, carrinhos de mão e mesas. Costumam comprar muita coisa: peixe seco, legumes, trigo, azeite, carne e, por vezes, peixe fresco também. Veena não gosta do peixe fresco. Cheira muito mal e, além disso, está sempre envolto numa nuvem de moscas. Quando a mãe levanta um para ver se é mesmo fresco, as moscas fogem e há sempre algumas que tentam poisar na cara de Veena, que as sacode. Mas elas são teimosas e voltam sempre. Ainda bem que a mãe raramente compra peixe fresco. O peixe seco é mais barato e aguenta mais tempo.
A mãe há muito que conhece a maior parte dos vendedores, e cumprimenta-os pelo nome. Também eles a conhecem e são simpáticos com ela, pelo menos enquanto olha e escolhe, mas, mal pergunta o preço, tornam-se sérios. Começam a regatear e, às vezes, demoram muito tempo. A mãe não desiste enquanto não consegue um bom preço. Alguns vendedores fingem que choram de aflição, outros praguejam:
– Deixa estar, Kirrisushi, da próxima vez não me enganas!
Mas, quando a mãe volta a aparecer, são tão simpáticos como dantes. A mãe sabe disso e sorri.
– O que seria um comerciante sem os compradores? – disse uma vez a Veena. – Nada. Nós precisamos dele e ele precisa de nós.
No mercado, Veena caminha em silêncio ao lado da mãe. Há tanta gente! As pessoas abrem caminho às cotoveladas, calcam os pés umas das outras e fazem-se de muito importantes. Veena sente-se insignificante. Do barulho, pelo contrário, Veena gosta muito. É completamente diferente do barulho das salas da fábrica. Alguns comerciantes anunciam os seus produtos com ditos muito engraçados, outros juram por todos os deuses que os seus são os mais frescos, embora qualquer pessoa veja que as bananas já estão muito escuras e que as maçãs estão tocadas.
Os pregões são abafados pelo som estridente dos rádios transístores. Cada vendedor sintonizou uma estação diferente e todas se misturam umas com as outras, numa grande confusão de ruídos. Mesmo assim, Veena consegue apanhar uma melodia que lhe agrada e fixa-a. Trauteia-a depois baixinho enquanto está no mercado e depois, quando ela e a mãe regressam a casa, cada uma com um saco à cabeça e um cesto em cada mão. Com uma melodia, Veena esquece até o peso da carga, e é capaz de se sentir feliz uma tarde inteira.
Hoje, ouviu uma melodia particularmente bonita, tocada por um flautista sentado entre duas bancas. À direita e à esquerda havia rádios a tocar, mas ele prosseguia, persistente e alheado, a sua melodia melancólica. Até a mãe gostou e parou algum tempo para ouvir, coisa que nunca faz. E agora trauteia-a juntamente com Veena.
– Eu já tinha ouvido esta música e acho que foi quando era pequena – diz a mãe, ao ver Veena olhar para ela, admirada.
Veena não consegue imaginar que a mãe já tenha sido criança, mas é claro que teve de ser. Será que era parecida com ela? Ou antes com Shaya? No preciso momento em que pensava nisto, Veena ouve muitos gritos atrás dela:
– Ladrão! Pára!
– Ali! Ali vai ele a correr!
Vira-se e assusta-se: Goga! É Goga quem fura por entre a multidão, sem olhar para a direita nem para a esquerda, e desaparece na confusão. Dois ou três vendedores correm atrás dele, mas não conseguem apanhá-lo.
A mãe também ouviu os gritos e viu Goga. Ainda há pouco sorria e cantava baixinho, mas agora, de repente, parece muito cansada. Até chegarem a casa, Veena não se atreve a dizer mais nada. Já não é a primeira vez que Goga rouba. A mãe ralha muitas vezes com ele por causa disso, mas Goga volta sempre a repetir. De volta ao barracão, a mãe pousa primeiro os cestos e depois tira o saco da cabeça. A seguir, chama Shaya.
– Viste o Goga?
Shaya não viu o irmão nem coisa nenhuma. Aproveitou a ausência da mãe para dormir mais um pouco, o que se vê pela cara inchada e pelos olhos mortiços. A mãe pergunta ao pai, mas ele também não o viu. Esteve todo o tempo deitado na esteira, e, em casa, o Goga não esteve. Também não o ouviu. E Najma esteve a tomar conta de Ruki. Isso já é trabalho que chegue. Ruki é tão selvagem que Najma não pode tirar os olhos de cima dela nem por um segundo. A mãe não descansa. Corre para fora e pergunta aos rapazes que estão em frente do barracão. Mas também eles não viram Goga desde manhã cedo. Nem Shivaji sabe onde possa estar o irmão. Veena está ao pé da mãe e ouve-a perguntar por ele, preocupada. Não diz que Goga roubou no mercado. Não quer que se fale por aí, mas fica zangada com Shivaji por ele não saber por onde anda Goga. Shivaji tem dezasseis anos, Goga, catorze. Shivaji devia olhar m ais pelo irmão. Shivaji faz uma careta. Está a jogar com os amigos e não quer ser incomodado.
A mãe volta para o barracão, mas Veena ainda fica sentada por algum tempo a ver os rapazes. Colocaram uma lata à frente deles e tentam cuspir lá para dentro. Quem falhar fica de fora. Todos os que acertaram dão um passo atrás e voltam a cuspir para ver quem vence a aposta. Ao fim de bastante tempo, ficam só dois. Um deles é Shivaji. Inclina-se para a frente, porque a distância à lata é já muito grande, mas, mesmo assim, acerta. O outro não. Shivaji ganhou. Dá a volta por todos os rapazes e recebe de cada um deles uma moeda. Depois, o jogo recomeça. Veena procura Goga, mas não o vê em lado nenhum. Tem dois irmãos tão diferentes! Goga é um vadio, sempre metido em sarilhos. Shivaji prefere ficar por casa e ganhar algum dinheiro aos outros. Será que é por ter o nome do deus Shivaji que ele é assim tão hábil? Veena suspira. Por vezes, gostaria de dizer aos irmãos que não deviam dar tantas preocupações à mãe. Mas claro que não pode dizer nada. Ela é só uma rapariga, e um dia vai casar e partir. Shivaji e Goga ficarão com os pais e, um dia, vão alimentá-los.
– Veeeeena!
A mãe! Veena levanta-se depressa e corre para junto da mãe. Tem de cortar ervas aromáticas, lavar arroz e moer especiarias. Não há muito tempo para pensar.
Goga só aparece à noite. Não sabe que Veena e a mãe o viram. Tem um cigarro enfiado no canto da boca, um sorriso irónico espalhado pela cara, e parece muito satisfeito. A mãe não contou nada ao pai sobre o roubo. Só Veena sabe. A mãe não lhe faz qualquer reparo, porque continua a não querer que o pai saiba, e dá-lhe a porção de arroz. Só o olhar é que deixa adivinhar alguma coisa. Goga repara nisso, e o sorriso desaparece-lhe.
– Aconteceu alguma coisa? – pergunta em voz baixa.
A mãe continua calada. Só quando Goga acaba de comer é que lhe faz sinal para ir até à frente da barraca. Veena segue-os. Se viu o que Goga fez, também quer saber o que a mãe vai dizer-lhe. Está escuro, em frente da barraca. Veena agacha-se junto ao caixote do lixo e olha para os dois. Só distingue as sombras, mas consegue ouvir tudo.
– Goga! – exclama a mãe em voz baixa. – Goga! Goga! Goga!
E depois pergunta:
– O que é que roubaste?
– Eu? – Goga faz-se de admirado. – Absolutamente nada!
– Não mintas! – ralha a mãe. – Eu vi-te. Tu tornaste a roubar, embora me tivesses prometido que não tornavas!
Goga fica calado.
– Então, o que é que roubaste?
– Uma galinha.
– E o que fizeste com ela?
Goga baixa ainda mais a cabeça e volta a calar-se. A mãe fica furiosa. Agarra Goga pelos ombros e sacode-o.
– Nós somos pessoas honestas, ouviste? Nós não roubamos. Temos comida e um teto, estamos bem. Não temos razão nenhuma para roubar.
Veena não consegue ver, mas sabe que Goga está a fazer cara de amuado. Goga quer um dia ser rico a sério. Foi ele que lhe disse. Ter a barriga cheia e um teto sobre a cabeça não lhe chega.
– O que fizeste com a galinha? – insiste a mãe. – Fala, de uma vez por todas!
– Eu… eu vendi-a – diz Goga por fim.
– E o que fizeste com o dinheiro?
Goga volta a calar-se. A mãe perde a paciência.
– Se não mo queres dizer a mim, di-lo ao pai.
Isso Goga não quer.
– Eu… eu comprei um bilhete para ir ao cinema.
– Tu foste ao cinema?
Goga acena com a cabeça e depois desata a chorar.
– Há tantos rapazes que vão ao cinema. Eu também queria…
Não diz mais nada. A mãe tapa-lhe a boca. Ninguém deve saber da conversa que tiveram um com o outro.
– Ainda tens dinheiro? – pergunta em voz baixa.
– Sim – confessa Goga.
– Leva-o ao templo. Oferece-o a Shiva. Talvez ele te perdoe.
Goga acena com a cabeça e depois sai imediatamente para seguir o conselho da mãe. Pelo menos, faz como se fosse segui-lo. Ainda por um momento, Veena segue o irmão com o olhar, e depois vai atrás da mãe para continuar a ajudá-la. Mas agora o trabalho já não é importante. O que Goga acabou de dizer é simplesmente extraordinário. Foi ao cinema e viu um filme a sério? Ela nunca foi ao cinema, só conhece os cartazes coloridos, onde se veem mulheres bonitas, homens a lutar, ou um casal de apaixonados.
Mira, a vizinha, também já foi ao cinema. Isso foi há bastante tempo, mas ela conta o filme muitas vezes. À mãe já contou duas, e, de ambas as vezes, Veena pôde ouvir. Desde então, também ela deseja poder ir ver um filme. O filme de Mira tinha sido muito bonito. Aparecia uma flor mágica, mas depois um demónio roubava-a, e um jovem deus tinha de voltar a encontrá-la. Deve ser maravilhoso viver uma história daquelas. Mira diz que nunca tinha chorado nem rido tanto como no cinema. E que todas as outras pessoas também tinham rido e chorado.
De noite, Veena está acordada e olha para Goga. Está muito escuro e não consegue vê-lo bem, mas sabe exatamente onde ele está deitado. Cautelosamente, chega-se a ele às apalpadelas. Shivaji acorda e agarra na bolsa com as moedinhas que escondeu debaixo da esteira. É o seu ganho. Hoje teve muita sorte no jogo.
– Sou eu – sussurra Veena, chegando-se para mais perto de Goga.
Shivaji resmunga em voz baixa, mas não se atreve a falar mais alto. Se o pai apanha a bolsa, fica com ela. Goga ainda está acordado, deitado de costas, a olhar para a escuridão. Veena toca-lhe ligeiramente.
– Sou eu.
– O que é que queres?
Goga não quer ser incomodado. Talvez esteja a pensar no filme.
– Foi bonito no cinema?
– Foi.
– O filme foi interessante?
– O que é que achas? Claro que sim.
– Conta-mo!
– Agora?
– Sim, por favor! Eu nunca fui ao cinema.
Goga conta-lhe então o filme, e fá-lo de boa vontade. Estava mesmo a pensar nele. Veena vê tudo à sua frente: a bela princesa, que foi assaltada por um bandido, o príncipe, que ama a princesa e que tem de lutar contra o bandido, a grande festa em honra do príncipe, por ele ter vencido o bandido. Quando Goga acaba, Veena chora.
– O que foi? – sussurra Goga. – Por que estás agora a chorar?
– Também gostava de ir uma vez ao cinema.
Primeiro, Goga fica em silêncio. Depois diz, com um ar duro:
– Quem quer ir ao cinema tem de roubar.
Roubar? Não! Disso, ela nunca será capaz! Sem barulho, Veena volta para a sua esteira e torna a pensar na princesa do filme de Goga. Depois, no bandido e no príncipe… De repente, no meio das imagens, vê a bolsa de Shivaji. Será que o dinheiro que está lá dentro chegaria para um bilhete de cinema? Veena começa a sentir-se muito quente. Não pode pensar aquilo em que está a pensar. Ela não é nenhuma ladra. Mas Shivaji é seu irmão… E ele ganhou o dinheiro no jogo… Se o pai o apanha, também lho vai tirar. Com cuidado, Veena chega-se mais perto de Shivaji. Encolhe a mão e fá-la deslizar por baixo da esteira de Shivaji. Ah, ali está a bolsa. Só precisa de a puxar e… – Veena!
A mãe procura-a na esteira dela! Veena volta depressa para o seu lugar.
– Sim?
– Levanta-te, já são horas! Hoje tens de me ajudar mais cedo. Vou fazer um pulao.
Um pulao é um prato especial que dá muito trabalho. A mãe não sabe que ela não dormiu nada durante a noite. Veena levanta-se e segue-a pelas escadas abaixo.
– Eu sozinha não consigo, sabes? – diz a mãe, quando acabaram de descer.
Veena apenas acena com a cabeça. Está agradecida à mãe por tê-la salvo, se não, os deuses de certeza que a teriam castigado. E, além disso, ela nem sequer teria tempo para ir ao cinema...
Klaus Korkon
Annapurna, a minha mãe é uma deusa
Munique, DTV Junior, 1989
(Tradução e adaptação)

sexta-feira, 2 de março de 2012

FRASE DO DIA

Nós não somos felizes, e a felicidade não existe; apenas podemos desejá-la."

POEMA A CONCURSO " FAÇA LÁ UM POEMA"

QUANDO FOR GRANDE
Quando for grande
Tenho um objetivo:
Ser médica ou curandeira
Para poder ajudar os outros
A minha vida inteira.

Eu quero ser médica
E tenho de me empenhar
Para que mais tarde
Eu me possa orgulhar
E ter o meu emprego.

Na minha profissão
Quero aos outros tirar
Todo o sofrimento
Da alma ou do corpo
É esse o meu pensamento.

A mãe e o pai insistem
Para eu estudar a valer
Para quando for grande
Eu poder trabalhar
E a minha profissão ter.

Quando crescer
Queria conhecer melhor o mundo
Aonde eu vivo e o que me rodeia
Os animais e as pessoas
E ver as coisas de outra maneira.

E agora para terminar
A todos vou desejar
Um bom caminho pela vida
Com felicidade e carinho
Pois agora estou de saída.

        Sandra Inês Henriques Leonor, 5A, Nº11, 10 Anos


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

CONTO " A JARRA PARTIDA

A jarra partida
 Partiu-se a jarrinha, aquela jarrinha de flores pintadas à mão, tão elegante, tão graciosa que era o enlevo de todas as pessoas que passavam por nossa casa.
— Está na nossa família há séculos. Dizem que foi oferecida por uma rainha de antigamente a uma antepassada nossa — explicava a minha mãe, enternecida, a olhar para a jarrinha de flores pintadas.
Pois, mas partiu-se. Partiu-se em cacos inumeráveis que não há conserto nem cola que lhe valham. Quem foi o desastrado?
— Eu não — safou-se o Tiago. — Quando eu cheguei a casa, já a mãe estava a chorar.
O meu irmão Tiago ficou livre de qualquer suspeita.
— Eu também não fui — apressou-se a dizer o meu pai. — Quando eu cheguei a casa, já a vossa mãe estava a ser consolada pelo Tiago.
— Eu é que não fui — choramingou a minha mãe. — Tinha tanta estimação na jarrinha. Quando eu cheguei a casa, não havia cá ninguém e já a jarra estava partida em mil bocados. Por pouco que não desmaiava de desgosto.
— Só se foi o Bolinhas... — lembrou o Tiago.
O nosso gato Bolinhas desenrolou-se com muita dignidade e disse:
— Eu não fui nem tenho nada a ver com o assunto.
E voltou a enrolar-se e a adormecer. Ai, quem me dera ter podido fazer o mesmo!
— Fui eu — balbuciei.
Todos se viraram para mim.
— Tu, Marcos? E estavas calado?
Suspirei fundo e comecei a contar o que acontecera. À medida que contava, ia ficando mais tranquilo, sem aquela insuportável queimadura nem sei onde – no estômago? No coração? na barriga? – que me fizera correr de casa para a escada, da escada para a rua, como se tivesse lançado fogo ao prédio. Ou a mim próprio.
Tinha sido um azar. É sempre um azar. Para meter a ficha do gravador de vídeo na tomada da parede, tive de arredar um bocadinho a estante. Não contava que fosse tão pesada. Com a inclinação da estante, os livros escorregaram. Precipitei-me sobre eles, para evitar o desmoronamento. Não medindo os gestos, dei um encontrão numa mesinha que abalou o expositor onde estava a jarrinha. Estremeceram as bonecas de Saxe e saltaram as chávenas de café nos respetivos pires... A jarrinha, como a casca de um ovo, partiu-se. Acho que ela estava, há muito tempo, à espera de partir-se. Qualquer estremecimento lhe daria o pretexto. Dei eu. A culpa foi minha.
Disse isto com um ar tão enfiado, tão de lamentar, que o círculo acusador à minha volta se desanuviou e desfez por si. A minha mãe, suspirando, foi varrer os vidros da jarra para uma caixa, na ilusão de que talvez ainda pudesse ser restaurada, o Tiago lançou-me uma piscadela de olhos de “fixe, meu”, e o meu pai, antes de mergulhar no jornal, confidenciou-me:
— Sabes: a jarra realmente já estava partida. Há tempos, na balbúrdia de uma brincadeira com o Bolinhas, que ainda era gatinho, a jarra rachou-‑se. Isto é, rachei-a... Como estava sozinho em casa, tive tempo de consertá-‑la o melhor que pude, para não dar um desgosto à tua mãe. Mas, de facto, a jarra já estava partida.
Por aquela não esperava eu.
— Tu tiveste muita coragem em confessar — continuou o meu pai. — De aqui a bocado, ao jantar, quando estivermos todos juntos, vou ser eu a precisar de coragem. E desculpa...
O meu pai abriu à sua frente as longas páginas do jornal, não sei se para lê-las, se para esconder a cara do embaraço. Também é preciso coragem para pedir desculpa.
António Torrado

FRASE DO DIA

"As nossas paixões são os principais instrumentos da nossa conservação."

Sequenciado genoma do 'Homem dos Gelos'

http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=2332455&seccao=Biosfera

BrandsBreeze tem tecnologia totalmente portuguesa

http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=2330602&seccao=Tecnologia

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

CARNAVAL - ORIGEM E EVOLUÇÃO

Carnaval é uma festa que se originou na Grécia em meados dos anos 600 a 520 a.C.. Através dessa festa os gregos realizavam os seus cultos em agradecimento aos deuses pela fertilidade do solo e pela produção. Passou a ser uma comemoração adotada pela Igreja Católica em 590 d.C.. É um período de festas regidas pelo ano lunar no cristianismo da Idade Média. O período do carnaval era marcado pelo "adeus à carne" ou do latim "carne vale" dando origem ao termo "carnaval". Durante o período do carnaval havia uma grande concentração de festejos populares. Cada cidade brincava a seu modo, de acordo com seus costumes. O carnaval moderno, feito de desfiles e fantasias, é produto da sociedade vitoriana do século XIX. A cidade de Paris foi o principal modelo exportador da festa carnavalesca para o mundo. Cidades como Nice, Nova Orleães, Toronto e Rio de Janeiro inspiraram-se no carnaval parisiense para implantar as suas festas carnavalescas. Já o Rio de Janeiro criou e exportou o estilo de fazer carnaval com desfiles de escolas de samba para outras cidades do mundo, como São Paulo, Tóquio e Helsínquia…
História e origem
A festa carnavalesca surgiu a partir da implantação, no século XI, da Semana Santa pela Igreja Católica, antecedida por quarenta dias de jejum, a Quaresma. Esse longo período de privações acabaria por incentivar a reunião de diversas festividades nos dias que antecediam a Quarta-feira de Cinzas, o primeiro dia da Quaresma. A palavra "carnaval" está, desse modo, relacionada com a ideia de deleite dos prazeres da carne marcado pela expressão "carnis valles", que, acabou por formar a palavra "carnaval", sendo que "carnis" em latim significa carne e "valles" significa prazer. Em geral, o carnaval tem a duração de três dias, os dias que antecedem a Quarta-feira de Cinzas. Em contraste com a Quaresma, tempo de penitência e privação, estes dias são chamados "gordos", em especial a terça-feira (Terça-feira gorda, também conhecida pelo nome francês Mardi Gras). O termo mardi gras é sinónimo de Carnaval.
O carnaval da Antiguidade era marcado por grandes festas, onde se comia, bebia e participava de alegres celebrações e busca incessante dos prazeres. O Carnaval prolongava-se por sete dias na rua, praças e casas da Antiga Roma, de 17 a 23 de dezembro. Todas as atividades e negócios eram suspensos neste período, os escravos ganhavam liberdade temporária para fazer o que em quisessem e as restrições morais eram relaxadas. As pessoas trocavam presentes, um rei era eleito por brincadeira e comandava o cortejo pelas ruas (Saturnalicius princeps) e as tradicionais fitas de lã que amarravam aos pés da estátua do deus Saturno eram retiradas, como se a cidade o convidasse para participar da folia. No período do Renascimento as festas que aconteciam nos dias de carnaval incorporaram os bailes de máscaras, com as suas ricas fantasias e os carros alegóricos. Ao carácter de festa popular e desorganizada juntaram-se outros tipos de comemoração e progressivamente a festa foi tomando o formato atual.
in Wikipédia Livre (adaptado)
                          in Wikipédia Livre (adapatado)

FRASE DO DIA

"Um braço vigoroso não é mais aguerrido contra a lança do que um braço frágil; são o carácter e a coragem que fazem o guerreiro."

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

FRASE DO DIA

"A nossa inveja dura sempre mais tempo que a felicidade daqueles que invejamos."

Portuguesa criou meio de auxílio ao diagnóstico premiado

http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=2300308&seccao=Sa%FAde

Portugueses acham ser vivo mais antigo à face da Terra

http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=2303457

UM CONTO DAS ARÁBIAS

Leïla
Leïla tem dez anos. Nasceu no grande deserto, onde os Beduínos viajam em camelos, no infinito das dunas movediças. Leïla é viva e veloz como um pássaro. Na tribo, chamam-lhe Leïla a indomável. O pai, o xeque Tarik, é justo. Por isso é respeitado em todos os acampamentos do deserto. Mas Tarik não sabe como acalmar a natureza selvagem da filha.
Leïla tem seis irmãos. Slimane é o mais velho. É o filho preferido do xeque Tarik. Só ele sabe como acalmar Leïla quando ela se irrita, quando se exalta. Só ele a faz rir quando está sombria e triste. E todos os dias Leïla acompanha Slimane através do oásis.
Certa manhã, quando as últimas estrelas se extinguem, Slimane deixa o acampamento. Monta o cavalo do pai e atravessa o deserto, procurando novas pastagens. Lá do alto de uma duna, Leïla e o pai acenam a Slimane que se afasta. Mas os dias passam e Slimane não regressa.
Tarik parte à procura do filho. Avança de duna em duna, de oásis em oásis. Leïla acompanha-o. Os pastores dizem-lhes que viram o cavalo branco, no horizonte, mas que este não levava cavaleiro algum.Os mercadores, com os seus camelos carregados de mercadoria, falam dos grandes espaços que atravessaram. Dizem a Tarik:
— Só Alá sabe onde se encontra o teu filho.
Então, Tarik compreende que o filho foi engolido pelas areias, como já acontecera a tantos Beduínos. E diz a Leïla que não voltará a ver Slimane. Leïla chora e grita. Ninguém pode levar-lhe o irmão, nem mesmo Alá!
Por fim, Tarik consegue acalmá-la. Regressam, vagarosamente, ao acampamento. Tarik fica em silêncio. Durante vários dias, permanece sentado na entrada da tenda, não tocando sequer nas deliciosas refeições que lhe oferecem os seus servidores. Leïla vagueia pelo oásis, como cega. Ao fim de sete dias, Tarik sai da tenda. Junta o seu povo e diz-lhe:
— A partir de hoje, qualquer um de vós que pronuncie o nome de Slimane será severamente punido. Quero esquecer!
O seu olhar é duro e frio. Todos os Beduínos baixam a cabeça. Sentem-se mal, mas ninguém ousa falar. Leïla também ouve a decisão do pai. Mas, apesar disso, todos os dias, sempre algo lhe fala de Slimane. Quando vê as crianças a brincar, lembra-se dos jogos que Slimane lhe ensinava. Quando passa pelas mulheres, recorda as histórias que lhes contava Slimane. Ao encontrar os pastores a guardar os rebanhos, pensa no pequeno cabritinho negro que o irmão adorava. A cada recordação Leïla quer gritar o nome de Slimane. Mas cala-se. E cada vez se torna mais selvagem e mais violenta. Os Beduínos afastam-se quando ela passa. Leïla sente-se mais só do que nunca.
Um dia, Leïla vê os irmãos fazerem um jogo que Slimane lhes ensinara. Então, sem pensar, diz-lhes:
— Slimane não jogava assim.
Os irmãos detêm-se de imediato, olhando-a com ar assustado. Ela tinha quebrado o silêncio.
Leïla vai visitar as mulheres à tenda e começa a contar-lhes uma história — uma daquelas que Slimane lhes contava. A mãe de Leïla protesta, angustiada:
— Pára, Leïla, se o teu pai ouve...
Pouco a pouco, as mulheres foram-se calando para ouvir, a sorrir e com um ar sonhador, a história de Leïla. Mas esta apercebe-se do ar inquieto da mãe. Queria fazer-lhe compreender... Mas só consegue gritar:
— Tenho de falar dele, tenho mesmo!
E sai a correr.
Leïla vai juntar-se aos pastores da montanha que, ao ouvirem o nome interdito, fogem. Mas Leïla vai atrás deles.
Fala-lhes do amor que o irmão sentia pelo pequeno cabrito negro. Pouco a pouco, os pastores aproximam-se dela. Quanto mais Leïla fala de Slimane, mais ele lhe parece próximo e presente. Agora sente-se em paz. Em breve todos a ouvem, a sorrir. É como se Slimane vivesse de novo entre eles.
Certa noite, um dos pastores mais jovens aproxima-se da tenda de Leïla. Chama-a:
— Anda, vem ver como o cabrito de Slimane cresceu.
Abre-se o pano da tenda e é Tarik que aparece. O seu olhar é mais gelado do que a aurora do deserto. As suas palavras ferem como o sabre mais cruel.
— Pastor, proibi que pronunciassem o nome do meu filho. Mas tu desobedeceste. Expulso-te deste oásis. Não voltes mais.
O pastor afasta-se, chorando. Os Beduínos baixam os olhos em silêncio. Estão infelizes. Têm medo. Afastam-se de Leïla, deitando-lhe um olhar de reprovação. Leïla quer gritar: “Slimane!”, mas guarda para si as palavras que lhe afloram aos lábios. Sente que a raiva aumenta. Sufoca. A sua paz é destruída. Parece que Slimane se afasta uma vez mais.
Na manhã seguinte, muito cedo, Leïla decide falar com o pai. Tarik está sentado na tenda, pensativo. Leïla aparece bruscamente à sua frente. Fala em voz baixa e reprimida:
— O pai não irá roubar-me o meu irmão. Não deixarei que o faça…
Tarik lança-lhe um olhar ameaçador mas Leila não lhe dá tempo para falar. Continua:
— Consegue ver o rosto de Slimane? Ouve a sua voz?
Tarik fica petrificado de espanto. Diz a tremer:
— Não, não consigo. Apesar disso, fico horas e horas no deserto.
Os olhos de Tarik enchem-se de lágrimas. Leïla diz-lhe docemente:
— Sei de uma maneira, pai, ora ouça...
Então Leïla começa a falar de Slimane. Como ele passeava com ela e o que dizia; como brincava e o que contava. Como a acalmava ou a fazia rir quando ela se irritava. Fala-lhe de alegria, de ternura e de vida... Quando acaba, diz:
— Pai, já consegue ver-lhe o rosto? Ouve agora a sua voz?
Tarik baixa a cabeça e, pela primeira vez desde há algum tempo, sorri.
— Está a ver — murmura Leïla — Slimane pode ainda viver entre nós.
Por algum tempo Tarik fica sonhador. Depois, volta-se para Leïla:
— Diz ao meu povo que venha juntar-se aqui.
Quando os Beduínos se reúnem em volta de Tarik, este declara:
— A minha filha Leïla soube trazer-me de volta o meu filho Slimane. Por isso, daqui em diante, chamar-lhe-eis Leïla – a mais sábia. Quero que o seu nome e o de Slimane sejam honrados em todos os acampamentos do deserto.
Dias mais tarde, o jovem pastor expulso regressou ao oásis.
E Slimane viveu de novo no coração de todos aqueles que dele se recordavam.
Sue Alexandre
Leïla
Porto, Ed. Edinter,1989
(Adaptação)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

FRASE DO DIA

"O homem ama a companhia, mesmo que seja apenas a de uma vela que queima."

1º PRÉMIO- CONCURSO "O PAI NATAL NA MINHA TERRA DE SONHOS"

O PAI NATAL NA MINHA TERRA DE SONHOS
Com o Pai Natal na minha terra de sonhos
Dá para cozinhar mil sonhos.
Cedo acordo
Ouço o sino a tocar
E levanto-me alegre, aos saltinhos
Devagar,
Para ninguém acordar
E vou, contente, ver os meus presentinhos.
Beatriz Soares, 6ºB

1º PRÉMIO- CONCURSO "O PAI NATAL NA MINHA TERRA DE SONHOS"


O PAI NATAL NA MINHA TERRA DE SONHOS
Com o Pai Natal na minha terra de sonhos

Dá para cozinhar mil sonhos.                                     

Cedo acordo

Ouço o sino a tocar

E levanto-me alegre, aos saltinhos

Devagar,

Para ninguém acordar

E vou, contente, ver os meus presentinhos.

Beatriz Soares, 6º B

14 DE FEVEREIRO - DIA DE S. VALENTIM

DIA DE S. VALENTIM
O Dia dos Namorados ou Dia de São Valentim é uma data especial e comemorativa na qual se celebra a união amorosa entre casais sendo comum a troca de cartões e presentes com simbolismo de mesmo intuito, tais como as tradicionais caixas de bombons. A história do Dia de São Valentim remonta a um obscuro dia de jejum tido em homenagem a São Valentim. A associação com o amor romântico chega depois do final da Idade Média, durante o qual o conceito de amor romântico foi formulado.
O bispo Valentim lutou contra as ordens do imperador Cláudio II, que havia proibido o casamento durante as guerras acreditando que os solteiros eram melhores combatentes.
Além de continuar a celebrar casamentos, ele casou-se secretamente, apesar da proibição do imperador. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens enviavam-lhe flores e bilhetes dizendo que ainda acreditavam no amor. Enquanto aguardava na prisão o cumprimento da sua sentença, ele apaixonou-se pela filha cega de um carcereiro e, milagrosamente, devolveu-lhe a visão. Antes da execução, Valentim escreveu uma mensagem de adeus para ela, na qual assinava como “Seu Namorado” ou “De seu Valentim”.
Considerado mártir pela Igreja Católica, a data de sua morte - 14 de fevereiro - também marca a véspera de lupercais, festas anuais celebradas na Roma antiga em honra de Juno (deusa da mulher e do matrimónio) e de Pan (deus da natureza). Um dos rituais desse festival era a passeata da fertilidade, em que os sacerdotes caminhavam pela cidade batendo em todas as mulheres com correias de couro de cabra para assegurar a fecundidade.
Outra versão diz que no século XVII, ingleses e franceses passaram a celebrar o Dia de São Valentim como a união do Dia dos Namorados. A data foi adotada um século depois nos Estados Unidos, tornando-se o The Valentine's Day. E na Idade Média, dizia-se que o dia 14 de fevereiro era o primeiro dia de acasalamento dos pássaros. Por isso, os namorados da Idade Média usavam esta ocasião para deixar mensagens de amor na soleira da porta do(a) amado(a). As histórias mais comoventes foram as de Carolina e Tomás e de Bárbara e Miguel, que acabaram por ficar juntos dias após o dia dos namorados. A felicidade é algo que predomina nesta data. O dia de São Valentim era até há algumas décadas uma festa o hábito estendeu-se a muitos outros países. Atualmente, o dia é principalmente comemorada principalmente em países anglo-saxónicos, mas ao longo do século XX associado à troca mútua de recados de amor em forma de objetos simbólicos. Símbolos modernos incluem a silhueta de um coração e a figura de um Cupido com asas. Iniciada no século XIX, a prática de recados manuscritos deu lugar à troca de cartões de felicitação produzidos em massa.

In wikipédia livre (adaptado)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

FRASE DO DIA

"Onde existem muitos para comandar, nasce a confusão."

UM CONTO DE AMOR.... E PAIXÃO

VIOLETA

Aqueles dois nem sequer reparam que Klaus abrira a porta da sala.
Então é aqui que está Niki, escondida atrás de umas costas altas e de uns braços compridos e verdes!
— O namorado da nossa filha tem uns braços de aranha! — costuma dizer o pai. E também diz: — Há três meses que traz vestida a mesmíssima camisola verde! Se calhar só a tira quando ela se desfizer!
— Deixa a Niki em paz — a mãe tenta acalmá-lo. — Tu não percebes! A Niki está apaixonada. O Bruno não tem de te agradar!
— Agradar?!
Deixa-me rir. Até fico cheio de comichão de cada vez que o vejo. Alto como a Torre Eiffel e magro como um esparguete! E é de uma coisa assim que a minha filha gosta? De um Bruuuno!!
“Será que o pai iria gostar mais da Violeta?”, pensa Klaus, à porta da sala.
Ele não se atreve a entrar e ir à prateleira buscar o livro sobre aviões, pelo menos enquanto os dois estiverem enrolados um no outro. Verde-aranha com pintas cor de laranja. As pintas cor delaranja são da t-shirt da Niki.
Porque é que Klaus tem de pensar agora mesmo na Violeta? E porque é que fica com o coração aos pulos? Aquilo ali, no sofá, à frente dele, não tem nada a ver com ele e com Violeta. Ou será que tem? Klaus ainda não beijou Violeta. Beijou, sim. Uma vez num jogo. Como multa, Klaus tinha de dar três beijos na cara de alguém. Claro que não foi escolher o Pedro ou o Martim e muito menos a Helga. Foi a Violeta quem recebeu os três beijinhos minúsculos. E logo de seguida, ficaram os dois vermelhos que nem tomates. Toda a gente se riu!
— O Klaus está apaixonado pela Violeta! — gritaram.
Deixá-los rir!
Estar apaixonado não tem graça nenhuma. É bonito, mas não é engraçado, pensa Klaus, porque Violeta se ofende muito depressa. E quando ela olha para ele só de relance, durante as aulas e depois no intervalo também… até dói! De cada vez que ele olha para Violeta e ela desvia o olhar, Klaus sente uma pontada lá no fundo… Mas agora, há já algum tempo que andam os dois bem, e Klaus tenta não fazer nenhuma asneira que possa zangar Violeta.
Klaus queria ir buscar o livro. Niki e Bruno ainda não repararam nele. Estão abraçados um ao outro e baloiçam-se levemente de um lado para o outro como se se tentassem adormecer mutuamente. Têm os olhos fechados. Estão em silêncio.
“Se calhar”, pensa Klaus, “quando se está mesmo apaixonado não se deve falar. O não falar significa precisamente gosto de ti.”
A dado momento, Niki abre os olhos mas só vê o seu Bruno. Não vê Klaus à porta.
A irmã e o namorado olham-se nos olhos, em silêncio. Continuam a não falar. “Hmm”, pensa Klaus, “eu e a Violeta também fazemos isso. Por acaso, este também é o nosso jogo. Olhamo-nos nos olhos muito tempo e tentamos adivinhar a cor dos olhos do outro porque ela muda ligeiramente todos os dias. Se há sol, se chove, se está claro ou escuro. Se é de manhã, ao meio-dia ou à tarde.”
Violeta acha que Klaus tem os olhos castanhos. Cor de café com leite. Klaus diz que tem olhos pretos. Como café sem leite.
— E os teus são azuis — diz depois Klaus. — Como a minha caneta.
— Não! Não gosto dessa comparação! — Violeta faz uma cara de ofendida e fulmina Klaus com o olhar. — Diz uma coisa mais bonita!
— Azul como o lago de Constança. — Klaus já lá tomou banho.
Violeta fica satisfeita com o lago, mesmo não o conhecendo. O azul de um lago é bonito.
— Como estes dois demoram! — suspira Klaus, apoiando-se na outra perna.
Então, quando se está apaixonado é assim… Agarramo-nos bem. Balançamo-nos de um lado para o outro. Fechamos os olhos por muito tempo. E, depois, abre-se os olhos mas não se pode olhar para mais lado nenhum a não ser para a pessoa que está à frente. A mão esquerda de Bruno percorre suavemente a mão direita de Niki, sobe pelo braço e volta a descer devagar. Também durante muito tempo.
Violeta iria achar isto estúpido. E Klaus, para falar a verdade, também. Já não aguenta muito mais tempo na soleira da porta. Klaus não gosta de ficar a olhar para namorados. Envergonha-se um pouco, mas não sabe bem porquê. Está um tanto agitado, mas não sabe muito bem porquê.
Vira as costas aos dois, mas choca contra a porta. Bum!
— Olha lá, miúdo, tu por acaso andas a espionar-nos?! — ouve-se a voz arranhada de Bruno.
— Há quanto tempo estás aí? — pergunta Niki, sentindo-se atingida.
Klaus encolhe os ombros. Será que deve dizer: “Há uma eternidade”?
— Já posso ir buscar o meu livro?
— Pensei que o teu irmão não estivesse cá hoje!
Bruno levanta-se.
— Da próxima vez que pensares que ele não está em casa, no teu lugar eu ia ver primeiro se, por acaso, não estará metido nalguma gaveta!
A voz de Bruno soa bastante desagradável. Niki também se levanta e segura o namorado pelo braço mas Bruno solta-se.
— Não me sinto bem aqui! — diz. — Tchau!
E vai embora. Nem sequer se torna a virar para Niki. Já não a olha mais nos olhos. Nem muito, nem pouco. Absolutamente nada.
Com Violeta é muito mais bonito. Eles acenam sempre com a mão um ao outro quando vão para casa, depois da escola, e se separam na paragem do elétrico. Pelo menos, nos dias em que Violeta não tenta olhar de relance para Klaus.
Depois, Violeta sorri.
Um sorriso muito amoroso e Klaus consegue ver-lhe os olhos, mesmo que já esteja muito escuro. Brilham, azuis como o lago de Constança. Continuam a brilhar mesmo quando Klaus já está do outro lado da rua, e ele até consegue sentir‑lhes ainda o brilho, muito depois de ter dobrado a esquina.

Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
München, DTV Junior, 1990
(Tradução e adaptação)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O TEATRO REGRESSA À BIBLIOTECA

FRASE DO DIA

"A paciência dos povos é a manjedoura dos tiranos."

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

JOSÉ FANHA NA ESCOLA DE CACIA

http://email.tripwow.com/wf/click?upn=UJjzIXJNvPp-2FSIzB-2Fydsuw3CkzuokuPPc3pFcw-2Bi7F1N9irIdb7MK1PIWjPhtieA5Dly2WGURNGNMxC4mkqPdGnIJHWT70E3zDu-2BsJ2NXbI-3D_MGCcJ8OLAlzLi1gHWRrY3I-2FoVb6TCzpQo5QW49gQh2su6nybQvNgX3G1Cy45H0-2FU6cbMh2SsNb5jl6KlteQA-2BgTmZ-2BVMILwVwn2ed3LHGUAlrVG-2BUAkj0sQ47UHTnow0JXH8NblKBvL4TNKsItGiEOKzAIjfRfGxGT5zTD5eYYWbYrebrWy5xcX5O8rkquHd

Menino chinês consegue ver no escuro

http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=2274257&seccao=%C1sia

Europeus e asiáticos descendem do mesmo grupo de africanos

http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=2275652

UM CONTO DO PAÍS DO SOL NASCENTE

A tecedeira de cabelos negros
Há muito, muito tempo, na cidade de Quioto, vivia um samurai que estava casado com uma mulher bela, de bom coração, que era, além disso, uma excelente tecedeira.
Quis o destino que o samurai perdesse o lugar que ocupava: o seu senhor morreu e ele ficou a ser um guerreiro sem emprego, um ronin. Embora a mulher vendesse os tecidos, o dinheiro não chegava. Não viviam na pobreza, mas já não podiam manter o mesmo estatuto. Cheio de vergonha, o samurai desesperava-se.
Um belo dia embalou os seus haveres e pôs os sabres à cintura.
— Vou-me embora — disse ele à mulher. — Isto não é vida para um homem como eu! Não suporto esta desonra. Arranja outro marido, que eu vou procurar a sorte noutras paragens.
Lavada em lágrimas a mulher suplicou:
— Peço-te que não me abandones. Hei de tecer ainda mais e vender cada vez mais!
Mas o samurai tinha o coração fechado. A mulher chorava, com os longos cabelos negros a flutuar sobre os ombros, mas ele apertou as sandálias, montou o cavalo e partiu sem olhar para trás.
Foi até uma cidade longínqua, onde por fim entrou ao serviço de um novo senhor. Graças às suas qualidades, rapidamente se fez notado e em pouco tempo passou a ser um dos mais próximos servidores do amo. Ora, este tinha uma filha, mimada e egoísta. “Se casar com ela, pensou o samurai, está feita a minha fortuna”. Assim, levado pelo interesse, fez-lhe a corte e soube cair-lhe em graça. O casamento foi motivo de grandes festas. Depois tudo voltou ao normal, como dantes.
A nova mulher passava o tempo diante do espelho, a depilar as sobrancelhas e a provar inúmeros vestidos de alto preço, enquanto o samurai servia o senhor e se cobria de glória nos campos de batalha, graças ao sabre, à lança e ao arco. Também acompanhava a esposa quando esta se fazia levar de liteira de loja em loja para comprar tecidos, vestidos, enfeites e joias. De pé, na rua, ao lado dos carregadores, irritava-se com a vaidade e a futilidade das suas ocupações. E não encontrava alegria naquela vida de rico com que tanto sonhara.
Vinha-lhe cada vez mais à lembrança a sua primeira mulher. De noite, via o seu lindo rosto, os olhos meigos a brilhar de afeto por ele, os seus longos cabelos pretos caídos sobre os ombros. Ouvia o bater do tear onde ela tecia os maravilhosos tecidos. Estendia para ela os braços e acordava destroçado, sentindo um enorme tédio por tudo aquilo que o rodeava.
Ao fim de algum tempo, os sonhos passaram a assaltá-lo durante o dia. Enquanto esperava que a esposa terminasse as suas eternas compras, o rosto da primeira esposa aparecia diante dele, com o seu sorriso, os traços finos, as mãos delicadas, a cabeleira preta. Aquelas imagens voltavam e perturbavam-no cada vez com mais frequência, ressuscitando-lhe o amor e o desejo. Durante a noite, lágrimas amargas cobriam-lhe os olhos. Agora sabia que, obcecado pelo sucesso, tinha cometido uma loucura. Rejeitara quem o amava e que ele amava também, sacrificara-a à busca de riqueza e de poder. Totalmente consciente desse facto, decidiu abandonar aquela existência artificial, voltar para a verdadeira mulher e pedir-lhe perdão.
Uma noite, montou o cavalo e tomou o caminho de Quioto.
Após vários dias de viagem, chegou à cidade um pouco antes da meia noite. Meteu por ruas escuras, desertas como túmulos e, com o coração a palpitar, dirigiu-se para a sua antiga morada. Entrou no pátio. As ervas estavam altas. À luz do luar, verificou que o papel de parede estava rasgado nalguns sítios. “Sim, disse a si mesmo, a vida não foi fácil para ela, mas agora que regressei, vou remediar tudo. Sim, tudo irá correr bem”.
Prendeu o cavalo, subiu os degraus, descalçou as sandálias, empurrou a porta e entrou. Percorreu as divisões da casa, e depois ouviu o bater regular do tear. O coração do samurai deu um pulo. Abriu uma última porta. A sua mulher estava sentada diante do grande tear, vestida com um vestido remendado, os belos cabelos negros caídos em cascata sobre os ombros e as costas. Voltou-se e viu-o. Um sorriso luminoso iluminou o seu belo rosto pálido. Correu para o marido que a tomou logo nos seus braços.
— Perdoa-me, — disse ele a chorar — perdoa-me, fui um tolo. Mas vou recuperar o tempo perdido, juro-te!
— Chiiiuuu! — murmurou ela, também em lágrimas, — chiiiuuu! Isso agora já não importa. As minhas orações foram ouvidas. Voltaste. Anda, vem!
Passaram a noite a conversar, a rir e a chorar, abraçados, enquanto as velas ardiam e se iam extinguindo. Até que o samurai acabou por adormecer, vencido pelo sono. De manhã, os raios do sol despertaram-no. Abriu os olhos. O astro brilhava mesmo em frente, através dos buracos do telhado: uma grande parte, apodrecida, tinha caído. Esfregou os olhos, mas não estava a sonhar. O sol batia-lhe em cheio. Estupefacto, olhou em volta.
Havia bolor em tudo, no papel rasgado das paredes e nas traves caídas. No chão de madeira carcomida cresciam ervas. Via-se no meio da sala um tear partido. Ao lado estava a mulher deitada, de costas para ele, os seus finos ombros envoltos num quimono remendado, os longos cabelos caídos pelas costas até ao chão. Segurando-a pelos ombros, virou-a para si e… foi apenas um esqueleto o que viu. Há muito, muito tempo que a sua querida mulher tinha morrido de desgosto, de solidão e de saudade.
Rafe Martin
« Les cheveux noirs » in 10 contes du Japon
Paris, Castor poche Flammarion, 2000
(Tradução e adaptação)