A- PARTES DO TRABALHO
1) Capa
2) Página de rosto
3) Página com agradecimentos (opcional)
4) Sumário
5) Introdução
6) Desenvolvimento (corpo do trabalho)
7) Conclusão
8) Bibliografia
9 Índice (opcional)
10) Anexos
11) Contra-capa
B- APRESENTAÇÃO DO TRABALHO
1- Usar folhas brancas de formato A4;
2) Escrever apenas de um dos lados da folha;
3) Colocar títulos e subtítulos de uma forma saliente e numerados;
4) Numerar as páginas;
5) Numerar e legendar as figuras;
6) Colocar capas protetoras no trabalho
DIVULGAÇÃO DAS ATIVIDADES DA BIBLIOTECA ESCOLAR DE CACIA
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
AFINAL ATÉ AS BRUXAS GOSTAM DE DOCES!
Uma guloseima para a Noite das Bruxas
O saco das guloseimas estava pronto e sentia-me ansiosa por ver chegar as crianças marotas. Mas, na manhã da Noite das Bruxas tive um ataque de artrite muito forte e, à tardinha, mal me conseguia mexer. Como sabia que ia ser difícil atender todas as vezes que batessem à porta, decidi deixar o saco pendurado da parte de fora da porta e ver, na sala às escuras, o desfile das crianças mascaradas.
A primeira a chegar foi uma bailarina com três fantasminhas. Cada um pegou numa guloseima, excepto o último, que tirou do saco uma mão cheia. Foi então que ouvi a bailarina ralhar: “Não podes tirar mais do que uma!” Fiquei contente por a criança mais velha agir como se fosse a consciência do pequeno.
Seguiram-se princesas, astronautas, esqueletos e extraterrestres. Apareceram mais crianças do que as de que eu estava à espera. Como as guloseimas estavam a acabar, preparei-me para desligar a luz da entrada. Detive-me ao reparar que tinha mais quatro visitas. Os três mais velhos meteram a mão no saco e retiraram um chocolate cada. Sustive a respiração, esperançada de que ainda restasse um para uma bruxinha. Mas, quando ela retirou a mão, tudo o que segurava era apenas uma simples goma de laranja.
Os outros chamaram:
— Emily, despacha-te! Não há ninguém em casa para te dar mais guloseimas.
Mas Emily deixou-se ficar mais um pouco. Meteu a goma no saco e, imóvel, ficou a olhar para a porta. Depois, disse:
— Obrigada, casa. Gosto muito da goma de laranja.
E correu a juntar-se aos companheiros.
Uma bruxinha querida tinha-me lançado um feitiço.
Evelyn M. Gibb
J. Canfield; M. V. Hansen; J. Read Hawthorne; M. Shimoff
Second Chicken Soup for the Woman’s Soul
Florida, HCI, 1998
(Tradução e adaptação)
terça-feira, 25 de outubro de 2011
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
O CAÇADOR DE BORBOLETAS
O caçador de borboletas
Vladimir recebeu muitas prendas no Natal, entre livros, discos, legos, jogos de computador, mas gostou sobretudo do equipamento para caçar borboletas. O equipamento incluía uma rede, um frasco de vidro, algodão, éter, uma caixa de madeira com o fundo de cortiça, e alfinetes coloridos. O pai explicou-lhe que a caixa servia para guardar as borboletas. Matam-se as borboletas com o éter, espetam-se na cortiça, de asas estacadas, e dessa forma, mesmo mortas, elas duram muito tempo. É assim que fazem os coleccionadores.
Aquilo deixou-o entusiasmado. Ele gostava de insectos mas não sabia que era possível coleccioná-los, como quem colecciona selos, conchas ou postais, talvez até trocar exemplares repetidos com os amigos.
Nessa mesma tarde saiu para caçar borboletas.
Foi para o matagal junto ao rio, atrás de casa, um lugar onde se juntavam insectos de todo o tipo. Já tinha apanhado cinco borboletas que guardara dentro do frasco de vidro, quando ouviu alguém cantar com uma voz de algodão doce – uma voz tão doce e tão macia que ele julgou que sonhava. Espreitou e viu uma linda borboleta, linda como um arco-íris, mas ainda mais colorida e luminosa.
Sentiu o que deve sentir em momentos assim todo o caçador: sentiu que o ar lhe faltava, sentiu que as mãos lhe tremiam, sentiu uma espécie de alegria muito grande. Lançou a rede e viu a borboleta soltar-se num voo curto e depois debater-se, já presa, nas malhas de nylon. Passou‑a para o frasco e ficou um longo momento a olhar para ela.
— Agora és minha — disse-lhe. — Toda a tua beleza me pertence.
A borboleta agitou as asas muito levemente e ele ouviu a mesma voz que há instantes o encantara:
— Isso não é possível — era a borboleta que falava. — Sabes como surgiram as borboletas? Foi há muito, muito tempo, na Índia. Vivia ali um homem sábio e bom, chamado Buda…
Vladimir esfregou os olhos:
— Meu Deus! Estou a sonhar?
A borboleta riu-se:
— Isso não tem importância. Ouve a minha história. Buda, o tal homem sábio e bom, achou que faltava alegria ao ar. Então colheu uma mão cheia de flores e lançou-as ao vento e disse: “Voem!”. E foi assim que surgiram as primeiras borboletas. A beleza das borboletas é para ser vista no ar, entendes? É uma beleza para ser voada.
— Não! — disse Vladimir abanando a cabeça. — Eu sou um caçador de borboletas. As borboletas nascem, voam e morrem e se não forem coleccionadores como eu, desaparecem para sempre.
A borboleta riu-se de novo (um riso calmo, como um regato correndo, não era um riso de troça):
— Estás enganado. Há certas coisas que não se podem guardar. Por exemplo, não podes guardar a luz do luar, ou a brisa perfumada de um pomar de macieiras. Não podes guardar as estrelas dentro de uma caixa. No entanto podes coleccionar estrelas. Escolhe uma quando a noite chegar. Será tua. Mas deixa-a guardada na noite. É ali o lugar dela.
Vladimir começava a achar que ela tinha razão.
— Se eu te libertar agora — perguntou — tu serás minha?
A borboleta fechou e abriu as asas iluminando o frasco com uma luz de todas as cores.
— Já sou tua — disse — e tu já és meu. Sabes? Eu colecciono caçadores de borboletas.
Vladimir regressou a casa alegre como um pássaro. O pai quis saber se ele tinha feito uma boa caçada. O menino mostrou-lhe com orgulho o frasco vazio:
— Muito boa — disse. — Estás a ver? Deixei fugir a borboleta mais bela do mundo.
Vladimir recebeu muitas prendas no Natal, entre livros, discos, legos, jogos de computador, mas gostou sobretudo do equipamento para caçar borboletas. O equipamento incluía uma rede, um frasco de vidro, algodão, éter, uma caixa de madeira com o fundo de cortiça, e alfinetes coloridos. O pai explicou-lhe que a caixa servia para guardar as borboletas. Matam-se as borboletas com o éter, espetam-se na cortiça, de asas estacadas, e dessa forma, mesmo mortas, elas duram muito tempo. É assim que fazem os coleccionadores.
Aquilo deixou-o entusiasmado. Ele gostava de insectos mas não sabia que era possível coleccioná-los, como quem colecciona selos, conchas ou postais, talvez até trocar exemplares repetidos com os amigos.
Nessa mesma tarde saiu para caçar borboletas.
Foi para o matagal junto ao rio, atrás de casa, um lugar onde se juntavam insectos de todo o tipo. Já tinha apanhado cinco borboletas que guardara dentro do frasco de vidro, quando ouviu alguém cantar com uma voz de algodão doce – uma voz tão doce e tão macia que ele julgou que sonhava. Espreitou e viu uma linda borboleta, linda como um arco-íris, mas ainda mais colorida e luminosa.
Sentiu o que deve sentir em momentos assim todo o caçador: sentiu que o ar lhe faltava, sentiu que as mãos lhe tremiam, sentiu uma espécie de alegria muito grande. Lançou a rede e viu a borboleta soltar-se num voo curto e depois debater-se, já presa, nas malhas de nylon. Passou‑a para o frasco e ficou um longo momento a olhar para ela.
— Agora és minha — disse-lhe. — Toda a tua beleza me pertence.
A borboleta agitou as asas muito levemente e ele ouviu a mesma voz que há instantes o encantara:
— Isso não é possível — era a borboleta que falava. — Sabes como surgiram as borboletas? Foi há muito, muito tempo, na Índia. Vivia ali um homem sábio e bom, chamado Buda…
Vladimir esfregou os olhos:
— Meu Deus! Estou a sonhar?
A borboleta riu-se:
— Isso não tem importância. Ouve a minha história. Buda, o tal homem sábio e bom, achou que faltava alegria ao ar. Então colheu uma mão cheia de flores e lançou-as ao vento e disse: “Voem!”. E foi assim que surgiram as primeiras borboletas. A beleza das borboletas é para ser vista no ar, entendes? É uma beleza para ser voada.
— Não! — disse Vladimir abanando a cabeça. — Eu sou um caçador de borboletas. As borboletas nascem, voam e morrem e se não forem coleccionadores como eu, desaparecem para sempre.
A borboleta riu-se de novo (um riso calmo, como um regato correndo, não era um riso de troça):
— Estás enganado. Há certas coisas que não se podem guardar. Por exemplo, não podes guardar a luz do luar, ou a brisa perfumada de um pomar de macieiras. Não podes guardar as estrelas dentro de uma caixa. No entanto podes coleccionar estrelas. Escolhe uma quando a noite chegar. Será tua. Mas deixa-a guardada na noite. É ali o lugar dela.
Vladimir começava a achar que ela tinha razão.
— Se eu te libertar agora — perguntou — tu serás minha?
A borboleta fechou e abriu as asas iluminando o frasco com uma luz de todas as cores.
— Já sou tua — disse — e tu já és meu. Sabes? Eu colecciono caçadores de borboletas.
Vladimir regressou a casa alegre como um pássaro. O pai quis saber se ele tinha feito uma boa caçada. O menino mostrou-lhe com orgulho o frasco vazio:
— Muito boa — disse. — Estás a ver? Deixei fugir a borboleta mais bela do mundo.
José Eduardo Agualusa
Era uma vez
Revista Pais e Filhos, s/d
19 de outubro - Dia Europeu Da Luta Contra O Tráfico Humano
Fiquem desde já sabendo que a Coca-cola que vocês bebem; as roupas que vocês usam; os sapatos que vocês calçam; os carros que vocês têm ou desejam ter; as luzes das vossas casas; os vossos eletrodomésticos; os vossos telemóveis, computadores, ipads ou iphones; os dvds e cds que compram; os tapetes, cortinas, lençóis das vossas salas de estar ou dormir; até a comida que vocês consomem; os produtos de higiene e de beleza que vocês compram; tudo isto e bastante mais é produzido por mão-de-obra escrava ou quase escrava.
E se vocês querem saber quantos “empregados à força” estão a trabalhar para vocês acedam a este site. O site Slavery Footprint (pegada da escravatura, em inglês) tem como objetivo alertar a população mundial para o facto de que muito do nosso bem-estar está ligado ao sofrimento de gente que não conhecemos, mas que, por nossa causa, perderam o direito de serem livres. Eu nem sequer sou uma cidadã consumista e, mesmo assim, tenho 28 prisioneiros ao meu serviço. Escusado será dizer que hoje sinto-me bastante deprimida… Por outro lado, este site também nos oferece “segundas vias”: como comprar com consciência, como diminuir ativamente a mão-de-obra escrava de que dependemos, que marcas conscientes devemos adquirir, etc. Também existe um outro site que nos revela as marcas e empresas que atualmente exploram os pobres: chama-se free2work e a lista dos “carrascos do século XXI” está muito, muito completa .
Como é que é possível que as coisas tenham chegado a este ponto? Bom, não é assim tão difícil percebermos… Em primeiro lugar, o mundo Ocidental (Europa, EUA, Austrália) deixou de produzir. As nossas fábricas fecharam, as nossas frotas pesqueiras foram desmanteladas, as nossas minas desativadas, os nossos campos abandonados. Queremos a boa vidinha mas não queremos trabalhar para a ter. Como, infelizmente, continuamos a precisar de nos vestirmos, de nos calçarmos, e continuamos a precisar de viver em casas e de termos transportes públicos ou privados (e isto é apenas uma pequena amostra das nossas necessidades) alguém vai ter construir tudo isto por nós. Por fim, tornámo-nos gananciosos, sôfregos de novidades, eternamente insatisfeitos. Parecemos meninos birrentos e mimados que, ao fim de meia-hora a brincar com o novo brinquedo, já queremos outro.
Mesmo que nos sintamos culpados por estarmos a contribuir para a escravatura atual, a verdade é que o Ocidente, atualmente, não tem outra escolha se não aceitar esta tragédia: onde é que vamos buscar os minerais para os nossos novos PCs, se quase todas as minas da Europa fecharam? Onde é que vamos buscar comida, se praticamente toda a gente abandonou a agricultura? E quem é que vai pescar por nós? E quem é que monta os nossos computadores e eletrodomésticos? E quem é que constrói as nossas casas? E quem é que cose os nossos sapatos e costura as nossas roupas de marca? E quem é que…
Já que a crise entrou nas nossas casas e arrasou o Ocidente – e quem está a lucrar com tudo isto é a China, a Índia, o Brasil, a Angola, a Coreia do Sul – ao menos que estes anos tenebrosos que aí virão sirvam para alguma coisa: quem sabe se, a tempo, os europeus e os americanos cheguem à conclusão de que estarem dependentes do trabalho dos outros não é propriamente uma ideia muito inteligente a seguir. É que “qualidade de vida” não é sinónimo de “liberdade”: se algum dia os nossos escravos decidirem recusar-se a mandar comida para as nossas mesas, vamos comer o quê? Os nossos ipads?
E, já agora, acedam a este relatório do ano de 2009, cujo objetivo é mostrar que países praticam a escravatura e de que maneira (a partir da página 14 até à 28) . Por exemplo: sabiam que o chocolate é dos bens de consumo que mais escravos produz? De momento, a única marca que está livre deste flagelo é a Cadburys. Quanto à Nestlé, podemos dizer que está bastante atenta a este problema.
Acordem, abram a vossa mente e pensem no futuro que estamos todos a construir.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
O REGRESSO A CASA
O regresso a casa
Leo já não queria voltar para casa. Estar em casa era aborrecido. O pai também já não ia voltar. Morava agora noutro sítio. E havia uma razão para isso: o pai tinha-se divorciado.
Como diz a canção, a separação dói. Quando olhava atentamente para a cara do pai, que visitava uma vez por mês, Leo não conseguia ver sinais de dor. Na da mãe, já via. Mas porquê? Ela ganhava dinheiro e, do pai, recebia a pensão para o filho. Mesmo assim, era incrivelmente avarenta. Mas não só em relação ao dinheiro. De um momento para o outro, ganhara uma inclinação para o cumprimento férreo do dever, e arrancava Leo demasiado cedo da cama, pela manhã.
— Tens de chegar a horas à escola — dizia.
Mas dizia isto num tal tom de voz que fazia Leo ir aos arames. Anteriormente a mãe não gritava, não berrava, não resmungava, bem pelo contrário, era meiga, amável, gentil. Leo não suportava a mudança… No entanto, quando se perguntava porquê, não conseguia encontrar uma resposta, e isso deixava-o ainda mais aborrecido. Preferia tapar os ouvidos quando ela falava. É certo que, dantes, o pai o levava à escola de carro e que isso tinha acabado. Mas seria razão para o arrancar tão cedo da cama?
Leo tinha pavor de ir para casa no fim da escola. Só a fome o empurrava. Quando abria a porta, o estômago contraía-se-lhe, pois sabia o que se ia seguir.
— Houve alguma coisa nova na escola? — perguntava a mãe.
— Nada — respondia.
— Tens trabalhos de casa? — continuava ela a perguntar.
— Sim — respondia ele num tom carrancudo.
— Vamos lá então começar em força! — dizia.
Força! Começar em força! Tinha mesmo dito “força”. O pai nunca o teria incomodado com palavras destas.
Quando ele estava a trabalhar à mesa, a mãe passava, espreitava por cima do ombro e pousava-lhe a mão suavemente nos cabelos. Como ele detestava aquilo! Não era nenhuma criança chorona a precisar de consolo.
— Sabes, agora temos de nos manter unidos — acrescentava em voz baixa.
Manter-se unidos? Contra o quê e contra quem? Contra o pai?
Ela que não tivesse ilusões!
Com os trabalhos de casa prontos, Leo escapava-se para a entrada em bicos de pés. Saltava para dentro das sapatilhas e punha-se à escuta. Sentada à máquina de escrever, a mãe fazia trabalhos para um escritório. Também escrevia aos sábados, por vezes até aos domingos. E de que é que isso adiantava? Para comer, continuava a haver só batatas ou flocos de aveia com espinafres. Se dava um passeio com ele, iam, quando muito, de eléctrico até à periferia. Como o aborrecia passear por terrenos apinhados a servir de armazém e deambular pelo circuito de ginástica da floresta. Que sentido tinha aquilo?
Leo abriu a porta sem fazer barulho, saiu furtivamente e correu para a estação do metro mais próxima. Algumas semanas atrás, tinha lá conhecido uns indivíduos da pior espécie que o haviam impressionado fortemente e que andavam sempre por ali à volta. Com estes indivíduos é que ele dizia palavrões, provocava as pessoas, fazia barulho e vociferava para expulsar a cólera e o desconforto que sentia.
Quando regressou a casa para jantar, não se esforçou por fazer pouco barulho.
— Onde estiveste? — perguntou-lhe a mãe.
— Lá em baixo — respondeu.
— Lá em baixo, onde?
— Fui ter com os meus colegas.
— Não achas que devias ter-me avisado?
Ele não respondeu e foi para o quarto. Depois do jantar, que simplesmente engoliu sem vontade, começou a andar de um lado para o outro como um animal dentro da jaula. A mãe apareceu e ficou a observá-lo por uns momentos.
— Vamos conversar? — perguntou.
— Deixa-me — foi a resposta.
A mãe voltou para a máquina de escrever e continuou a trabalhar. Por vezes, Leo reparava que ela tinha olhos de choro e a cara muito magra. Só que ela nunca chorava alto, não gritava, nunca dava um murro na mesa. Punha-o doido o facto de ela nunca lhe ralhar ou nunca o tratar mal. Durante a noite, quando Leo ia ao quarto de banho, notava que havia luz no quarto da mãe. Perguntava-se o que estaria ela a fazer, mas evitava ir espreitar.
No porta-moedas, Leo trazia o número de telefone do pai. Havia poucos momentos em que podia telefonar sem ser incomodado. Era principalmente quando a mãe ia ao escritório entregar o trabalho. Ficava fora uma hora e Leo pendurava-se ao telefone. Mas, nos últimos tempos, não tinha sorte. De cada vez que levantava o auscultador, ouvia o sinal de ocupado. Também se admirava por o pai nunca telefonar.
Assim que a mãe voltou, Leo foi plantar-se à porta do quarto dela.
— O telefone está estragado — disse, com um tom de censura.
— Não está estragado — respondeu, cansada, a mãe. — Está cortado.
— Cortado, porquê?
— Porque não posso pagar a conta.
— Aqui não há nada que funcione! — disse Leo, furioso, regressando ao quarto.
Enterrou a cara nas mãos, tapou com força os ouvidos mas, mesmo assim, ouvia o matraquear da máquina de escrever. Parava a máquina de escrever e era o bater da loiça ou a máquina da roupa a girar aos solavancos no quarto de banho. A mãe estava sempre a fazer alguma coisa, só ele não podia fazer nada. Nada! Esperava, esperava, mas não sabia o quê.
As notas do semestre foram uma miséria. A mãe quis vê-las. Contra isso, não podia protestar, e preparou-se para um furacão. A mãe olhou para a folha, poisou-a em cima da mesa e disse:
— O que se passa contigo? Porque me fazes isto?
— Eu? A ti? — disse ele, confuso.
— Isto entre nós não pode continuar assim — disse a mãe.
Nesse aspecto tinha razão. Assim não podia continuar. Ele já não queria.
Na altura, ele fora motivo de discussão e ficara entregue à guarda da mãe. Entregue! Podiam dizer o que quisessem. Na verdade, o lugar dele não era ali. Quando tivesse catorze anos, ia poder decidir sozinho. Ainda faltava ano e meio. Nessa altura, as coisas iam então esclarecer-se. Esclarecer as posições, como costumava dizer o pai. Sair, queria sair finalmente daquela casa tão triste e escura!
Pouco antes da Páscoa, Leo recebeu uma carta. A mãe tinha-a pousado em cima da mesa dele. Era uma carta do pai.
Queres vir fazer uma viagem a Itália comigo? — leu Leo. — Não consigo telefonar-te porque o vosso telefone está desligado. Que tal Itália? Escreve-me imediatamente.
— Sim! — berrou Leo.
Sentada atrás da máquina de escrever, a mãe assustou-se.
Leo escreveu, juntou as suas coisas e meteu tudo na mochila. Assobiava e cantarolava e já tinha a cabeça bem longe dali. Não reparava na expressão da mãe, nem no que ela estava a fazer. A mãe colocara-lhe uma escova dos dentes nova e pasta dentífrica ao lado da mochila, sabonete, toalhetes, roupa interior lavada e algumas provisões. Remexeu no armário da roupa à procura de um envelope. Dividiu o conteúdo e pôs metade das notas por baixo da saboneteira.
— Para qualquer eventualidade — disse.
— Não preciso disso — respondeu Leo.
— Nunca se sabe — opinou a mãe.
Mesmo assim, aceitou o dinheiro. Uma impressão esquisita apertava-lhe de tal forma a garganta, que nem agradeceu.
Quando saiu de casa, já não pensava nisso. Estava invadido por uma alegria efusiva, e o eléctrico, a caminho da estação do comboio, deslizava como um caracol.
Leo encontrou finalmente o pai. Só tinha olhos para ele. Atirou-se a ele e abraçou-o a rir.
— Olá, Leo! — disse o pai.
— Estou tão contente, pai!
— Também eu — respondeu o pai. — Não me trates por pai. Trata-me antes por João.
— Está bem! — gritou Leo, tão alto, que algumas pessoas se voltaram.
— Está aqui mais alguém que também vai connosco — disse o pai. — Chama-se Nora.
Leo voltou-se. Uma mulher jovem observava-o, com reserva, e deu-lhe um breve aperto de mão.
— Bom dia — disse ela, e Leo sentiu uma pontada no estômago.
— Bom dia — cumprimentou ele em voz baixa.
“Então as coisas são assim”, pensou Leo “e não como eu tinha imaginado.”
— Que caras, meninos! — exclamou o pai. — Alegrem-vos! Somos uma família!
Leo fez um sorriso forçado, mas Nora manteve-se séria.
“Pode ser que, apesar de tudo, seja agradável”, pensou Leo para se acalmar, respirando fundo.
— Como estamos de finanças, Leo? — perguntou o pai.
Leo bateu no bolso do peito e sentiu-se imediatamente mais seguro.
— Óptimo — disse o pai. — O dinheiro guardo-o eu, ou tu ainda vais perdê-lo.
De seguida, dirigiram-se ao balcão e compraram os bilhetes.
Partiram. De olhos fechados, Leo apreciava o trepidar das rodas; sonhara com a viagem de comboio, com o mar azul, com a cara risonha do pai e as brincadeiras que fariam juntos. Mas, quando estavacomacarado pai à frente dos olhos,interpôs-se-lhe a de Nora.
Leo abriu os olhos. O pai e Nora estavam sentados à sua frente, de mãos dadas e em silêncio. Mas era ele quem devia sentar-se ao lado do pai. Afinal de contas, tinha mais direito do que aquela desconhecida, que não podia saber o quanto ele tinha sofrido sem o pai.
— Já acordou — disse Nora. — Vamos, tenho fome.
Levantou-se e levou o pai com ela.
— Tens alguma coisa para comer? — perguntou o pai, apontando para a mochila de Leo.
Leo assentiu com a cabeça.
— Nós voltamos já. Toma conta da bagagem — disse o pai, dizendo-lhe adeus com a mão.
Deixaram-no e seguiram para o vagão-restaurante a rir e a tagarelar. Leo tirou as provisões da mochila. De repente, sentiu-se despido de qualquer sensação. Estava vazio. Abriu mecanicamente a lata, arranjou o pão e pegou num saquinho que tinha um pequeno papel dentro. Reconheceu a letra da mãe. SAL – estava escrito. Sentiu as orelhas a aquecer. Começou a comer sem apetite, deitou fora o lixo, mas foi incapaz de se desfazer do papelinho, que meteu no bolso do casaco junto com as moedas soltas. Depois, tentou adormecer.
Deve mesmo ter adormecido, pois, quando abriu os olhos, já era dia. O pai estava sentado à sua frente. Nora dormia com a cabeça deitada no ombro do pai. O pai sorriu a Leo.
— Já estamos quase a chegar — disse.
O hotel era à beira da praia e tinha poucos hóspedes.
Não havia ninguém na água, ainda era muito cedo. Alguns casais caminhavam pela praia de um lado para o outro, apreciando a brisa fresca; outros estavam deitados nas espreguiçadeiras, embrulhados em mantas. O pai e Nora passeavam na areia de mãos dadas, Leo seguia três passos atrás. Já era o segundo dia em que as coisas se passavam assim. Leo gostaria de ter deslizado a sua mão na mão livre do pai, mas já não era nenhuma criança pequena. Tinha vergonha e parecia‑lhe ridículo. Esperava por um sinal do pai que lhe indicasse que, finalmente, ia começar um jogo de bola, uma corrida, uma prova de esforço na água fria. Esperava em vão. Leo caminhava três passos atrás de Nora e do pai. Se eles paravam, ele parava também. Se prosseguiam, ele recomeçava. Até que Nora se virou para trás:
— Leo, não arranjas nada para fazer sozinho?
O olhar de Leo saltou de Nora para o pai. O pai olhava para o mar.
— Olha, um barco à vela! — disse.
Leo também olhou para o longe.
— Sim — disse Leo em voz baixa — posso arranjar qualquer coisa para fazer. Dás-me o meu dinheiro, pai?
— Dinheiro? Não sobrou nada. Chegou à justa para o teu bilhete.
— Vou para o hotel — disse Leo.
— Vemo-nos ao jantar — disse-lhe o pai com um sorriso.
Leo voltou para trás, caminhando devagar pela praia. Assim que ficou fora do alcance da vista do pai, desatou a correr. No quarto, procurou o bilhete de comboio e um pedaço de papel. Encontrou o bilhete, mas não tinha papel. Tirou do bolso o papelinho amarrotado onde a mãe tinha escrito a palavra SAL. Espantou-o a facilidade com que agora se separava dele.
Obrigado pelo convite, escreveu ele no papel, que prendeu no espelho.
Em seguida, tirou a mochila do cubículo onde estava o seu catre e correu para a estação do comboio. O empregado do balcão explicou-lhe, por sinais, quanto faltava para chegar o comboio. Leo trancou-se no quarto de banho da estação e ficou à espera.
Assim que o comboio chegou, atravessou furtivamente o cais, como um ladrão, e saltou para uma carruagem. O comboio partiu e Leo começou a chorar. Não sabia porquê. Não sentia dor nem alegria, somente alívio. Fechou os olhos. Através das pálpebras descidas, via a paisagem a passar e ouvia o bater das rodas. Matraqueavam como a máquina de escrever da mãe. Estava com fome, mas não tinha dinheiro. As poucas moedas que trouxera mal tinham chegado para o eléctrico!
Seguiu ao acaso pelas ruas escuras, chegou a casa e viu luz nas janelas. Abriu a porta sem fazer barulho, entrou furtivamente na sala que tinha as janelas iluminadas e susteve a respiração.
Viu a máquina de escrever com uma folha de papel metida e um maço de folhas escritas. Ao lado estava a tábua de passar a ferro; por baixo, o cesto cheio de roupa e, no chão, meias de vidro e panos de várias cores. Viu a mãe a dobrar as camisas dele, a alisar, com a mão, a roupa dele. Ele estava ali, de pé, incapaz de dar mais um passo, e esperava. Deixou cair a mochila.
A mãe assustou-se. Leo olhou para a cara amedrontada da mãe, que se alegrou em seguida ao reconhecê-lo na ombreira da porta. Levantou-se, veio junto dele e observou longa e atentamente a sua cara.
— Deves estar com fome — disse, dirigindo-se para a cozinha.
— Mãe! — disse Leo.
Há muitos meses que não pronunciava esta palavra. E como o vestíbulo estava às escuras, abraçou-a.
Wilhelm Meissel
(adaptado)
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
terça-feira, 11 de outubro de 2011
5 ALUNOS PORTUGUESES DESTACARAM-SE NAS OLIMPÍADAS IBERO-AMERICANAS DA FÍSICA
Alunos portugueses destacam-se nas Olimpíadas Ibero-Americanas de Física

Cinco estudantes portugueses obtiveram a melhor classificação de sempre nas Olimpíadas Ibero-Americanas de Física, que terminou ontem em Guayaquil (Equador). Na XVI edição deste concurso, Portugal obteve uma medalha de ouro, duas de prata e uma de bronze. Na final, participaram 64 alunos do ensino secundário, de 17 países, que realizaram duas “longas e difíceis provas de Física”, uma teórica e outra experimental, explica uma nota divulgada pela Universidade de Coimbra (UC), responsável pelo treino da equipa nacional.
O vencedor absoluto da competição, iniciada a 26 de Setembro, foi um estudante de Espanha, que obteve também a melhor classificação da prova teórica.
A medalha de ouro foi para André Calado Coroado (E.S. c/ 3º ciclo do Restelo, Lisboa) e as de prata para Rui Miguel de Oliveira Cordeiro (E.S. Dr. Joaquim de Carvalho, Figueira da Foz) e Shane Miguel Lennon Beato (E.T.L. Salesiana de Santo António, Estoril). Emanuel Ângelo Lopes de Carvalho (E.S. Carlos Amarante, Braga) ficou com o bronze. (...)
In “Ciência Hoje” 11/10/2011
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