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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

DESCOBERTA DA PENICILINA

Em 30 de setembro de 1928, Alexander Fleming, descobre a Penicilina.

Alexander Fleming nasceu em Lochfield, no sudoeste da Escócia, e estudou medicina na Universidade de Londres. Concluindo o curso em 1906, começa a pesquisar, em seguida, substâncias com potencial bactericida que não fossem tóxicas ao organismo humano. Trabalhou como médico microbiologista no Hospital de St. Mary, Londres, até o começo da Primeira Guerra Mundial. Durante a guerra foi médico militar nas frentes de batalha da França e ficou impressionado pela grande mortalidade nos hospitais de campanha causada pelas feridas de arma de fogo que resultavam em gangrena gasosa. Finalizada a guerra, regressou ao Hospital St. Mary onde buscou intensamente um novo anti-séptico que evitasse a dura agonia provocada pelas infeções durante a guerra.
Os dois descobrimentos de Fleming ocorreram nos anos 20 e ainda que tenham sido acidentais demonstram a grande capacidade de observação e intuição deste médico britânico. O descobrimento da lisozima ocorreu depois que o muco do seu nariz, procedente de um espirro, caísse sobre uma placa de cultura onde cresciam colónias bacterianas. Alguns dias mais tarde notou que as bactérias haviam sido destruídas no local onde se havia depositado o fluido nasal.
Ele chegou à descoberta da penicilina e das suas propriedades antibióticas em 1928, ao observar uma cultura de bactérias do tipo estafilococo e o desenvolvimento do mofo em seu redor, onde as bactérias circulam livres. Em Setembro de 1928, Fleming estava a realizar várias experiências no seu laboratório e ao inspecionar as suas culturas antigas antes de destruí-las notou que a colónia de um fungo havia crescido espontaneamente, como um contaminante, numa das placas de Petri semeadas com Staphylococcus aureus. Fleming observou outras placas e comprovou que as colónias bacterianas que se encontravam em redor do fungo (mais tarde identificado como Penicillium notatum) eram transparentes devido a uma lise bacteriana. A lise significava a morte das bactérias, e no caso, das bactérias patogénicas (Staphylococcus aureus) crescidas na placa. Ainda que tenha reconhecido imediatamente a importância deste seu achado, os seus colegas subestimaram-no.

Aprofunda a pesquisa e constata que uma cultura líquida de mofo do género Penicillium evita o crescimento dos estafilococos. Publica os resultados desses estudos no British Journal of Experimental Pathology em 1929, mas não obtém reconhecimento nem recursos financeiros para aperfeiçoar o produto durante os anos seguintes.

Howard Walter Florey, Ernest Boris Chain e Norman Heatley foram os grandes reesposáveis para transformar a penicilina em medicamento antibiótico, porém isso somente foi possível após Fleming ter tomado os créditos pela pesquisa clínica gerenciada por Florey. A equipa de Florey foi responsável por criar uma maneira de extração e de purificação como também pelos ensaios clínicos. A produção industrial começou nos Estados Unidos (EUA) no início da II Guerra Mundial. Fleming, Florey e Chain recebem juntos o Nobel de Fisiologia/Medicina de 1945.
Fleming trabalhou com o fungo durante algum tempo, mas a obtenção e purificação da penicilina a partir dos cultivos de Penicillium notatum resultaram difíceis e mais apropriadas para os químicos. Mas a comunidade científica da época achava que a penicilina só seria útil para tratar infeções banais e por isto não lhe deu atenção. No entanto, o antibiótico despertou o interesse dos investigadores dos Estados Unidos que durante a Segunda Guerra Mundial tentavam imitar a medicina militar alemã que possuía as sulfamidas. Os Farmacêuticos Ernst Boris Chain e Howard Walter Florey descobriram um método de purificação da penicilina que permitiu a sua síntese e distribuição comercial para o resto da população.
Fleming não patenteou sua descoberta, pois achava que assim seria mais fácil a difusão de um produto necessário para o tratamento das numerosas infecções que castigavam a população.
Por seus descobrimentos, Fleming compartilhou o Nobel de Fisiologia/Medicina de 1945 junto a Ernst Boris Chain e Howard Walter Florey.
Fleming foi membro do Chelsea Arts Club, um clube privado para artistas fundado em 1891 por sugestão do pintor James McNeil Whistler. Conta-se como anedota que Fleming foi admitido no clube depois de realizar "pinturas com germes" e que estas pinturas consistiam em pincelar o lenço com bactérias pigmentadas, as quais eram invisíveis no início, mas que surgiam com intensas cores uma vez incubadas e crescidas. As espécies bacterianas que utilizava eram:
• Serratia marcescens – cor vermelha
• Chromobacterium violaceum – cor púrpura
• Micrococcus luteus – cor amarela
• Micrococcus varians - branca
• Micrococcus roseus – cor rosa
• Bacillus sp. – alaranjada
Alexander Fleming morreu em 1955 de um ataque cardíaco. Foi enterrado como herói nacional na cripta da Catedral de São Paulo em Londres.
Seu descobrimento da penicilina significou uma mudança drástica para a medicina moderna, iniciando a chamada "Era dos antibióticos".



quinta-feira, 29 de setembro de 2011


POEMA OLHAI

OLHAI
Olhai o homem que lavra seu campo subjugado pela
terra
Sua míngua, sua angústia de lama
Olhai como lavra

Olhai o homem que pensa usurpado da liberdade
Sua constância imensa, sua verdade
Olhai como pensa

Olhai o homem que constrói o que outro derruba
Sua tristeza, que lhe dói e perturba
Olhai como constrói

Olhai o homem do seu tempo como desespera
Seu direito a acreditar, sua longa espera
Olhai o Homem

Olhai o homem que ama
Olhai à vossa volta se conheceis algum assim
Mas olhai por fim.

in «Os poemas não se servem frios» Temas-Originais - Coimbra 2010
A LADEIRA
Era uma vez dois homens. Um era alto, outro baixo. Um era gordo, outro magro. Um moreno, o outro ruivo. Um tinha a voz muito grossa e outro uma borbulha na ponta do nariz. Um chamava-se Manuel Francisco e o outro Francisco Manuel. E muito mais coisas poderia dizer de cada um deles. Mas, o fundamental, é que eram muito diferentes um do outro. Só numa coisa se assemelhavam: ambos eram tremendamente teimosos.
Na terra onde viviam havia uma ladeira íngreme, inclinada, cheia de pedras e calhaus. Uma ladeira daquelas que a gente só sobe ou desce quando não pode deixar de ser.
Um dia, um dos homens ia a subir a ladeira quando o outro vinha a descê-la. Como é natural, encontraram-se a meio. Bem... A meio, a meio, exactamente a meio, não tenho a certeza se foi. Talvez tenha sido um bocadinho mais para cima ou um bocadinho mais para baixo. Para a nossa história esse pormenor não tem grande importância e, por isso, vamos fazer de conta que foi a meio.
Mais ou menos a meio da ladeira, os dois homens encontraram-se, pararam à frente um do outro e desataram a discutir. Um ia a subir e, por isso, achava que a ladeira era uma subida. O outro vinha a descer e, pelo contrário, garantia que se tratava de uma descida.
Sem chegar a acordo, sentaram-se ali mesmo no chão para tirar a questão a limpo. Quem os conhecesse, sabendo que eram homens de palavra fácil, capazes de inventar sólidas razões e grandes argumentos, logo via que aquela discussão ia demorar. E demorou.
Passaram-se sete dias e sete noites e a discussão não parava. Veio a Lua e foi-se o Sol, veio o Sol e foi-se a Lua e os dois homens a discutir. Nem o frio, nem o calor, nem a chuva, os distraiu. Continuavam na mesma. Para um, aquela ladeira era uma subida porque subia de baixo para cima. Para o outro, era uma descida porque descia de cima para baixo.
A discussão continuou e continuou.
À sétima noite começou a soprar um vento muito forte. Um vento tão forte e violento que arrancava terras, árvores e pedras e as atirava de um sítio para outro. Um vento daqueles capazes de trabalhar lentamente, séculos e séculos a fio, para mudar a face da Terra e transformar montes em covas fundas e buracos de meter medo nas mais altas montanhas.
O tempo passou. O vento mexeu com tudo. Mudou a paisagem. Transformou o mundo. Só os dois homens continuavam sentados no meio da ladeira sem darem por nada do que acontecia à sua volta. Estavam tão preocupados, cada um, em ganhar a discussão que não sentiram nem a chuva na pele, nem o frio nos ossos, nem o sol na moleirinha.
Passaram-se sete mil noites e sete mil dias, os homens a discutir e o vento a trabalhar.
A ladeira, a pouco e pouco, ia ficando diferente. A parte mais alta cada vez menos alta, e a parte mais baixa a crescer sem parar à custa de entulho, areia, calhaus e pedrinhas que a tornavam cada vez menos baixa.
Um belo dia, a parte de baixo e a parte de cima da ladeira ficaram iguais, da mesma altura e, portanto, a ladeira desapareceu. A terra ficou direitinha, lisa, uma planície que se estendia até perder de vista.
O vento, sem mais nada que fazer ali, foi trabalhar para outro lado. Os dois homens que, como eu já disse, eram muito teimosos, continuavam a discutir se a ladeira era uma subida que se descia ou uma descida que se subia.
A certa altura, olharam em volta, para um lado e para outro, até onde a vista podia alcançar. Aperceberam-se então que a ladeira tinha desaparecido. Olharam um para o outro, levantaram-se, cumprimentaram-se e, cheios de orgulho, afastaram-se cada um em sua direcção, ambos seguros de que tinham ganho a discussão.
José Fanha
A noite em que a noite não chegou
Porto, Campo das Letras, 2001


HAVERÁ ALGO MAIS RÁPIDO DO QUE A LUZ?

CERN descobre que, afinal, há algo mais rápido que a velocidade da luz.
A Teoria da Relatividade pode estar em causa: o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN) anunciou ter conseguido superar a velocidade da Luz com partículas elementares da matéria.

CERN descobre que, afinal, há algo mais rápido que a velocidade da luz
De acordo com a teoria formulada por Albert Einstein nada pode superar a velocidade da Luz. Os investigadores do CERN que participaram no projeto Opera recolheram durante três anos de ensaios dados que permitem acreditar que a teoria da Relatividade tem exceções.
No âmbito do projeto Opera, os especialistas do CERN descobriram partículas elementares da matéria (conhecidas por Neutrinos) que se deslocam a velocidades de 300.006 quilómetros por segundo, informa a AFP. O que significa uma velocidade seis quilómetros por segundo mais rápida que a estimada para a velocidade da luz.
Os ensaios implicaram a deslocação de neutrinos num percurso de 730 quilómetros entre a sede do CERN, em Genebra, e um laboratório subterrâneo em Gran Sasso (em Itália). A investigação teve por base a observação das "viagens" de 15 mil neutrinos entre os laboratórios suíço e italiano do CERN.
Os responsáveis do CERN estimam que numa corrida de 730 quilómetros ao longo da crosta terrestre, a velocidade alcançada pelos neutrinos permitiria um avanço de 20 metros face à velocidade da Luz.
Os testes apresentaram uma margem de erro com uma fração de segundo que é considerada um recorde no CERN. O que não impediu que os investigadores, cientes do impacto que estes resultados podem ter no estudo da Física, revissem até ao mais ínfimo pormenor todos os instrumentos de medição, bem como eventuais anomalias nos circuitos usados pelos neutrinos, ou os efeitos do afastamento das placas continentais que constituem o Planeta.
Mesmo tomando todas as cautelas, os investigadores admitem ser necessário validar estes resultados através de entidades independentes.
Apesar desta descoberta, ainda será cedo para declarar que a Teoria da Relatividade e Albert Einstein passaram de moda. Pierre Binetruy, diretor do Laboratório de Astropartículas e Cosmologia de Paris, lembra que os dados obtidos pelo projeto Opera apenas provam que a Teoria da Relatividade só é válida em certos domínios, podendo assim surgir uma nova teoria de âmbito mais global.
A velocidade alcançada pelos neutrinos pode indiciar não só que que a velocidade da luz não é o limite máximo possível, como também que as "as partículas encontraram um atalho em outra dimensão", conclui Binetruy, dando o mote para o debate sobre a existência de um universo com mais de quatro dimensões (três relativas ao espaço somada a uma quarta referente à passagem do tempo.

Ler mais: http://aeiou.exameinformatica.pt/cern-descobre-que-afinal-ha-algo-mais-rapido-que-a-velocidade-da-luz=f1010677#ixzz1ZKLG4Fo4

terça-feira, 27 de setembro de 2011

ENTRELAÇADAS
Na primavera de 1943, Lillian Scott deu à luz gémeas. As crianças eram muito semelhantes e tinham sido concebidas no mesmo momento. Com os seus vestidinhos iguais, aconchegadas todas as noites na mesma cama, eram também profundamente diferentes. Joyce, a primeira a nascer, era uma bebé saudável, destinada a enfrentar os desafios e os triunfos daquilo que se costuma designar como uma vida normal. Judith veio a este mundo com os traços faciais enfezados e achatados, próprios da síndroma de Down. Embora na altura não se pudesse ainda saber, viria a revelar também uma surdez profunda.
Apesar do abismo entre ambas, abismo esse que se foi aprofundando com os anos, Joyce Scott vai contar-nos que, a partir do momento em que se nasce gémeo, é-se gémeo para toda a vida. Joyce entrou na vida ativa, foi mãe e tornou-se profissional da saúde, mas nunca deixou de ter a irmã no pensamento, ainda que esta vivesse numa instituição longínqua. Com o tempo, porém, a distância entre ambas, quer do ponto de vista literal, quer metafórico, começou a fazê-la sofrer. Esta é a história de como Joyce e Judith voltaram a reunir-se e de como, de várias maneiras, se salvaram uma à outra.
No início, as crianças eram inseparáveis. Deixadas entregues às suas próprias brincadeiras pelos três irmãos mais velhos, passavam longas tardes entretidas no quintal dos subúrbios de Cincinnati, a brincar às casinhas e a inventar jogos. Mas à medida que os anos passavam, as diferenças entre ambas iam-se acentuando. Joyce fazia as etapas do desenvolvimento normal, Judith ficava muito atrás. Joyce já construía frases completas, Judith apenas balbuciava. «Queria tanto comunicar com ela!», diz Joyce, actualmente com 60 anos. «Fazia de conta que ela falava. E nos meus sonhos falava!»
Chegada a altura de irem para a escola, Judith fez testes, na esperança de ser admitida na única escola pública para crianças com dificuldades de aprendizagem. Mas não conseguiu responder à maior parte das perguntas. «Ninguém se apercebeu de que era surda», diz Joyce. «Aponta o círculo», disse-lhe o psicólogo. Mas ela nem sequer conhecia as palavras. Nessa época, as famílias raramente mantinham em casa os filhos com deficiências profundas, e a pressão para mandar Judith para fora começou a aumentar. «Falámos com o padre, com os psicólogos, e todos nos disseram a mesma coisa, que devíamos interná-la numa instituição», diz Lillian, agora com 91 anos. «Senti que se me partia o coração.»
Numa manhã de outono, aos 7 anos e meio, Joyce acordou e deparou com um lugar vazio na cama da irmã. Os pais explicaram-lhe que a Judith ia para um sítio onde havia pessoas mais aptas a tomar conta dela. Joyce lembra-se de se ter sentido profundamente desolada. «Lembro-me daquela sensação extrema de solidão e de vazio sem ela.»
Sempre que podia, a família visitava Judith na fria e labiríntica Estadual de Columbus, que ficava a três horas de distância de carro. Ao fim de cinco anos, Judith foi transferida para o Centro de Desenvolvimento Gallipolis, um pouco mais moderno que a escola anterior, mas ainda mais longe de casa. As visitas da família foram rareando, sobretudo depois da morte do pai, em 1956, o que deixou Lillian sozinha e com quatro filhos para criar.
Mas mesmo em Gallipolis, Judith recebeu pouca educação e formação. Nunca aprendeu a falar, a ler ou a escrever, e nem após lhe ter sido diagnosticada a surdez, por volta dos 30 anos, lhe ensinaram a linguagem gestual.
Entretanto, Joyce cresceu, entrou para a faculdade e mais tarde mudou-se para a Califórnia, onde se casou, constituiu família e fez carreira como enfermeira. Meses, por vezes anos, decorreram entre as viagens ao Ohio para visitar Judith. Ilana, a filha de Joyce, lembra-se de aos 9 anos ter acompanhado a mãe e ter visto a tia Judy pela primeira vez. «Há anos que não se viam, mas quando a Judy deparou com a minha mãe, reconheceu-a logo. A mamã só conseguiu soluçar.»
Em 1985, Joyce, que tinha começado a trabalhar com doentes terminais e precisava de recarregar as baterias, fez um retiro nas montanhas de Santa Cruz, nos arredores de São Francisco. Durante as horas que passou sozinha, a lembrança da irmã consumiu-a. «É diferente estar-se naquele silêncio», diz Joyce. «Não só me apercebi de como a nossa relação era profunda, como de que não havia razão para que estivéssemos separadas.» Antes do fim do retiro, decidiu que ela e Judy passariam o resto da vida juntas.
Joyce fez as diligências necessárias para se tornar a responsável legal da irmã, e um ano depois trouxe-a para a Califórnia. Depressa encontrou um centro de dia perto de casa, em Berkeley, onde Judith poderia receber os cuidados diários de que necessitava. E, a conselho de um psicólogo amigo, inscreveu-a nas aulas do Centro de Arte de Desenvolvimento Criativo, um estúdio de arte para pessoas com deficiência.
O armazém aberto e arejado onde os artistas dão aulas de pintura, cerâmica e tapeçaria é um local espantoso, explica Joyce. «Há uma enorme sensação de liberdade e de criatividade.» Durante os primeiros meses, Judith chegava às aulas todas as manhãs e limitava-se a sentar-se a uma das grandes mesas e a fixar o olhar vago, enquanto os formadores lhe iam passando argila, tinta e lápis de cor para trabalhar. «Era intratável e teimosa», diz Sylvia Seventy, que lhe deu aulas no centro. «Por mais que tentássemos levá-la a fazer qualquer coisa, não se mexia.»
Até que a situação mudou. «Ela é engraçada e eu também», diz Sylvia. «Pus-me a imitar as expressões dela e consegui pô-la a rir. E assim começou a apreciar-me.»
Sylvia iniciou o trabalho com Judith numa tela de tapete, ensinando-a a coser com uma agulha de tecelagem e fio de lã. «Ela cosia e cosia até preencher uma boa área», diz a formadora. Um dia, começou a enrolar lã à volta de um feixe de vimes. E acrescentou cordel, tecido, rede de arame e tábuas à criação artística.
«Desde que começou a trabalhar com lã e desperdícios, foi como se encontrasse uma voz para exprimir algo que até então nunca conseguira exprimir», diz Stan Peterson, outro professor do centro. Nos meses seguintes, Judith desenvolveu um estilo próprio e singular. Começou por utilizar objectos de refugo, como uma prancha de skate, uma ventoinha partida, madeira, um sapato, e a envolvê-los com fio de lã ou cordel, trabalhando horas a fio até o objecto inicial ficar irreconhecível. Alguns dos seus trabalhos atingiram tais proporções que foram precisos dois homens para os carregar.
Embora a maior parte tivesse formas abstractas, algumas das peças iniciais tinham uma certa semelhança com bonecas. Judith chamou à sua primeira escultura tridimensional «Baba» e embalou-a nos braços. Fez também um par de figuras enroladas em lã preta. Joyce chorou ao vê-las e pensou: «Somos nós.»
Em 1989, Frank Maresca, co-proprietário da Galeria de Arte Ricco/Maresca, de Nova Iorque, que expõe trabalhos de artistas marginais e autodidactas, visitou o Grupo Criativo e ficou encantado com o trabalho de Judith. «Era algo diferente de tudo o que eu já vira, aqueles casulos muito texturados que escondiam sabe-se lá o quê no seu âmago», diz Maresca. «Senti-me atraído pelo exterior e envolvido pelo mistério do interior.»
Maresca começou a expor e a vender os trabalhos de Judith, tendo alguns deles atingido o preço de 15 000 dólares. (A maior parte das necessidades financeiras de Judith é coberta pela Segurança Social, pelo que os seus proventos são depositados na sua conta bancária.)
A fama da sua arte foi-se espalhando, e os curadores de museus começaram a aparecer para a conhecerem e verem as enigmáticas esculturas de fibra. Nos últimos anos, o seu trabalho tem sido exposto em museus e galerias de Chicago, São Francisco, Paris e Tóquio. Em 1999, o historiador de arte John M. MacGregor traçou o perfil da artista no livro Metamorfoses: A Arte de Fibra de Judith Scott. No ano passado, o Museu Norte-Americano de Arte Popular acolheu cinco peças da colecção de Judith.
Joyce diz que, embora Judith não tenha consciência da fama, sofreu transformações com a atenção pública. «Está mais sociável agora», diz ela. «Dantes, era desconfiada, calada, fechada em si mesma. Agora, irradia amor pela vida.» Joyce também mudou. «Quando a Judy estava no lar, sentia que me faltava uma parte. Agora que estamos juntas e que a vejo desabrochar sinto-me muito melhor. Que bem me sinto por estar perto dela!»
Numa recente manhã de sol, Judith senta-se no cantinho habitual, no estúdio de arte de tijolo e vidro, a trabalhar na última peça, um guarda-sol partido envolto em fio de lã de múltiplas cores. Com calma e método, corta 1 m de fio azul-claro de um novelo, passa-o pelas varetas meio cobertas do guarda-sol, ata-o, enrola-o, corta-o e recomeça com um novo fio de lã. Esta mulher pequena e rechonchuda, de cabelo às farripas, concentra-se no trabalho, que apenas interrompe de vez em quando para saborear uma Diet Pepsi.
Mal a irmã entra na sala, Judith abre-se num sorriso. Balança como uma criança, abrindo e fechando a mão. Joyce abraça-a. Aperta-lhe as mãos e beija-lhe a face. Uma gémea é-o para sempre.

Rachele Kanigel
Selecções do Reader’s Digest
Março – 2004 (adaptado)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

José Niza -  morte aos 73 anos

Morreu esta sexta-feira o músico, compositor, médico e ex-deputado socialista José Niza, uma figura marcante na música da década de 70. O compositor tinha 73 anos e morreu no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado desde terça-feira.
José Manuel Niza Antunes Mendes nasceu em Lisboa, a 16 de Setembro de 1938, e viveu em Portalegre até aos 7 anos. Fez a escola primária e o liceu em Santarém, residindo actualmente numa aldeia próxima desta cidade, Perofilho.
Desde criança foi musicalmente influenciado pela vivência familiar. A sua mãe tinha o curso de piano do Conservatório Nacional e o seu bisavô - José Niza - foi compositor de mérito, em Campo Maior, tendo o seu espólio de composição musical ficado na posse do maestro e compositor Fernando Lopes Graça. A avó materna era prima direita do Dr. António Victorino de Almeida, pai do conhecido maestro, pianista e compositor do mesmo nome.
No liceu de Santarém (cidade com fortes tradições académicas) José Niza começou a aprender guitarra e viola aos 13 anos. Em 1956 e em simultâneo com David Leandro Ribeiro, ambos se matricularam na Universidade de Coimbra: José Niza em Medicina e David Leandro em Direito.
Chegados a Coimbra, foram rapidamente introduzidos no meio da guitarra coimbrã, onde então pontificava o grupo de António Portugal, Jorge Godinho, Manuel Pepe e Levy Baptista.
Ambos tiveram a sorte de conhecer e acompanhar, já em fase final dos seus cursos, os cantores da excecional geração dos anos 50: Luiz Góes, José Afonso, Machado Soares, Fernando Rolim e Sutil Roque. Constituíram então um grupo com os violas Emanuel Maranha das Neves e João Conde Veiga.
A partir de 1959 José Niza encetou outros caminhos musicais. Em 1961, com José Cid, Proença de Carvalho, Joaquim Caixeiro e Rui Ressurreição, funda a Orquestra Ligeira do Orfeon Académico, uma das melhores formações musicais da altura, a par do Quinteto Académico e do Thilo's Combo.
Com o aparecimento da bossa nova e com o ressurgimento do jazz em Coimbra, é fundado o Clube de Jazz do Orfeon Académico e constituído o seu Quarteto: Rui Ressurreição (piano, órgão e vibrafone), José Niza (guitarra elétrica), Daniel Proença de Carvalho (viola elétrica) e Joaquim Caixeiro (bateria). Foi a partir dessa experiência que, em Coimbra, se organizaram os primeiros festivais internacionais de jazz, por onde passaram grandes nomes da cena mundial, como Dexter Gordon e Don Byas.
Não obstante estas actividades musicais, José Niza não abandonou completamente a sua ligação ao fado e à guitarra. E, assim, com Durval Moreirinhas, gravou as duas primeiras baladas que José Afonso registou em disco, exclusivamente acompanhadas à viola.
Licenciado em Medicina em 1966, continuou em Coimbra, onde fez a sua tese de licenciatura sobre esquizofrenia, enveredando, depois, pela psiquiatria.
Em 1969 foi convidado para compor a música para dois espetáculos do CITAC: A Exceção e a Regra, de Bertold Brecht e Castelão e a Sua Época, ambos proibidos pela Censura. Ainda no mesmo ano foi mobilizado, como médico, para a guerra colonial. Nas matas do Norte de Angola, entre outras canções, compôs música para dois discos: Gente de Aqui e de Agora, que gravou em 1971, e Fala do Homem Nascido, com poemas de António Gedeão. Entretanto, em 1970, já Adriano gravara algumas canções de José Niza: Cantar de Emigração e Fala do Homem Nascido.
Regressado da guerra colonial em 1971, José Niza passou a ser responsável pela produção da editora Arnaldo Trindade, Lda. (Discos Orfeu) para onde gravavam, ou vieram a gravar, os nomes mais importantes da música popular portuguesa: José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília, Sérgio Godinho, Vitorino, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, Manuel Freire, Carlos Mendes, José Calvário, Duarte Mendes e muitos outros. Como produtor, ou director musical, José Niza foi responsável pela gravação de discos como Gente de Aqui e de Agora, de Adriano Correia de Oliveira (1971), Eu Vou Ser Como a Toupeira (1972), Venham Mais Cinco (1973), Coro dos Tribunais (1974) e Com as Minhas Tamanquinhas (1976) todos de José Afonso e O Guerrilheiro (1974) de Luís Cília.
Autor de muitas canções para intérpretes como Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Carlos Mendes, Duarte Mendes, Tonicha, Teresa Silva Carvalho, Vitorino, Janita Salomé, Rui Veloso, Samuel e muitos outros (para além dos cantores de Coimbra), José Niza ganhou quatro Festivais RTP da Canção. Foi o autor da letra da canção E Depois do Adeus, "senha" musical para o Movimento das Forças Armadas na noite de 24 de Abril (juntamente com Grândola Vila Morena, de José Afonso).
Deputado em muitas legislaturas, José Niza foi autor, ou co-autor, de diversas iniciativas e diplomas legislativos: Código dos Direitos de Autor e Direitos Conexos, Lei de Protecção da Música Portuguesa, Redução do Imposto sobre Importação de Instrumentos musicais, etc.

In “Público” em 23/09/2011
(adaptado)

O homem que ficou sem sono ou a história de um herói contada em português

Era uma vez um homem que um dia ficou sem sono. Queria dormir, mas não conseguia, apesar de sempre ter dormido bem. Quando fechava os olhos, não lhe saía da cabeça a tristeza que havia no olhar das crianças que se apinhavam junto da porta da casa onde morava e trabalhava. Era um homem bom que gostava do que fazia e que fora educado para obedecer às ordens dos seus superiores, estivesse onde estivesse. Nunca lhe passara sequer pela cabeça a possibilidade de um dia vir a infringir essa regra.
Esta história é verdadeira e aconteceu poucos dias antes de começar o Verão do ano de 1940. Ainda há muita gente viva que se lembra bem desse homem e daquilo que ele fez, deixando de pensar em si e pensando nos outros e na sua salvação. O homem era diplomata e nascera no norte de Portugal. Chamava-se Aristides de Sousa Mendes, era casado e tinha vários filhos. A sua carreira como cônsul levou-o até à cidade francesa de Bordéus, onde lhe chegaram as primeiras notícias do começo da Segunda Guerra Mundial quando as tropas alemãs atacaram a Polónia e a Inglaterra se opôs a essa agressão, em defesa da liberdade e da democracia, declarando que faria frente, pelas armas, aos agressores.
O homem era pessoa de bem e defensor da paz. Não podia aceitar a ideia de que alguém pudesse ser perseguido, torturado e morto só por ter ideias políticas diferentes ou outra religião. Fora educado para a tolerância e por isso respeitava os direitos dos outros. À medida que as tropas alemãs invadiam países como a Bélgica ou a Holanda e se aproximavam da fronteira francesa, iam chegando a Bordéus refugiados das nações ocupadas, em busca de um visto no passaporte que lhes permitisse chegar a Espanha e depois a Portugal, apanhando mais tarde, em Lisboa, um barco ou um avião que os levasse para países como os Estados Unidos da América, o Brasil ou a Argentina, onde não havia guerra. Portugal e Espanha, governados por ditadores como Hitler, o senhor da Alemanha, não tinham entrado na guerra e iriam manter-se à margem dela, embora durante muito tempo tenham estado ao lado dos alemães e do que eles representavam.
O homem queria dormir, mas não era capaz. Ecoavam-lhe na cabeça as vozes das crianças que sofriam de fome e de sede e que, lembrando-lhe os seus filhos, tinham o direito de viver e de crescer em liberdade. De Lisboa, o cônsul português recebera ordens muito rigorosas no sentido de não deixar chegar refugiados a Portugal. Pensou e voltou a pensar, consultou a mulher e escreveu uma longa carta aos filhos explicando o que tencionava fazer e as razões dessa opção. Espreitou pela janela e viu nos olhos das crianças um sorriso fugidio que representava a última réstia de esperança. Por elas valeria a pena arriscar. Por elas e pelos princípios que defendia. Foi assim que a palavra «desobediência» entrou definitivamente no seu vocabulário. Mandou abrir as portas do Consulado de Portugal e forneceu aos funcionários carimbos e selos brancos para poderem emitir o maior número de vistos possível. A partir desse momento seria uma batalha sem tréguas contra o tempo. Cada minuto contava. Cada dia parecia uma eternidade.
Durante três dias não houve descanso para ninguém dentro do Consulado, e ainda sobrou tempo para se dar água e comida àqueles que esperavam à porta em intermináveis filas, com a esperança de que o pesadelo por fim terminasse. Pela rádio chegavam notícias da rendição da França, o que significava que já faltava muito pouco para que as tropas de Hitler chegassem também a Bordéus, perseguindo e prendendo judeus e opositores políticos ao regime nazi. Era preciso actuar ainda mais depressa. O cônsul conseguiu arranjar tempo para ir às cidades de Bayonne e Hendaye onde havia um grande número de refugiados tentando passar a fronteira em direcção a Espanha. Aristides de Sousa Mendes sabia que o desrespeito pelas ordens de Lisboa teria consequências dramáticas para o seu futuro e da sua família. Ainda assim, não recuou. Sabia que a razão estava do seu lado e não estava disposto a abdicar dessa razão, que correspondia à salvação de milhares de vidas.
— Mãe, tenho fome e sede e quero sair deste sítio — dizia a menina austríaca para a mãe pálida e exausta.
— Talvez amanhã de manhã já possamos estar a caminho da liberdade, porque há ali dentro um homem bom que nos quer ajudar.
O homem não se deixou vencer pelo cansaço, pelo sono, pela fome ou pela sede. A vida dos outros estava primeiro. Se eles tinham pressa, a sua conseguia ser ainda maior. No Consulado, houve quem o avisasse: «O senhor bem sabe o que lhe pode acontecer!» Mas ele não quis saber e continuou a passar vistos, perdendo a conta às pessoas que já tinha conseguido salvar. Terão sido dez mil, quinze mil ou trinta mil? Não se sabe ao certo. Sabe-se sim que chegaram a Lisboa e que depois foram encaminhados para o Estoril, para a Ericeira, para a Figueira da Foz ou para as Caldas da Rainha. Mais tarde, a maioria conseguiu partir para países onde havia liberdade. Alguns voltaram depois do final da guerra às suas terras, outros nunca mais as quiseram ver porque não conseguiram esquecer as horas de sofrimento e perda. Três dias bastaram para que o cônsul Aristides de Sousa Mendes abrisse a milhares de refugiados as portas para a liberdade, desobedecendo a Salazar e ao regime que ele dirigia. Por isso foi prontamente banido da carreira diplomática e proibido de exercer qualquer actividade profissional, morrendo na miséria em 1954, com os filhos dispersos por países como os Estados Unidos, onde puderam estudar e seguir as suas carreiras. Num dia quente de Junho de 1940, no Rossio, em Lisboa, um menino de cabelo loiro perguntou aos pais, enquanto estes procuravam uma pensão ou um hotel onde se pudessem instalar até conseguirem arranjar bilhetes num barco ou num avião para Nova Iorque.
— Como é que se chama aquele senhor que, em Bordéus, nos passou os vistos para podermos chegar a este país?
O pai, não contendo uma lágrima comovida, respondeu-lhe:
— Chama-se herói, filho. Quem faz o que ele fez por nós só pode ter esse nome.
Ainda não houve um grande realizador de cinema que fizesse um filme sobre esta história verdadeira, à semelhança do que Steven Spielberg fez com Oskar Schindler, mas pode ser que ainda venha a ser feito. Nunca é tarde para celebrar os feitos dos heróis.
Naquelas noites quentes de Junho de 1940, havia em Bordéus um português que não conseguia dormir. Não lhe saía da memória a aflição das crianças que queriam ver abrir-se a porta que as deixasse seguir o caminho até à liberdade. Essa porta abriu-se e por ela passou uma réstia de luz, desenhando no cetim negro do céu, entre as estrelas, a linda palavra «Esperança», escrita em português como esta história verdadeira que é sempre bom contar e recontar.
Porquê? Porque é sempre possível que a tragédia volte a acontecer, onde e quando menos se espera.
                                                                                                                    
     José Jorge Letria
Contos de um Mundo com Esperança
Lisboa, Texto Editora, 2003
(adaptação)


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Morreu o pintor Júlio Resende (1917-2011)

Júlio Resende morreu hoje, em Valbom, Gondomar, disse à Lusa um amigo do pintor. Tinha 93 ano.
Júlio Resende, que hoje faleceu aos 93 anos, ia inaugurar amanhã mais uma exposição em Lisboa.
A pintura contemporânea portuguesa ficou mais pobre. Júlio Resende, nascido no dia 23 de outubro de 1917 no Porto, morreu hoje na sua casa em Valbom, Gondomar, nas vésperas de completar 94 anos e da inauguração, em Lisboa, de uma grandiosa exposição da sua obra.
Fazendo coincidir com as Noites de São Bento, a galeria São Roque inaugura amanhã em Lisboa, às 20h, a exposição "Resende, uma mão cheia de cor: um pintor de mão cheia".
"Pintor de mão cheia"
A exposição, que tem o apoio do Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende, reúne 27 obras dos colecionadores Maria Helena e Mário Roque. Lugar ainda para a exibição da colecção Traços de Mestre, desenvolvida por Júlio Resende para a Revigrés.
"Bem demonstrativa da grande qualidade artística do pintor a exposição permite, numa viagem por várias épocas e diferentes séries, conhecer um pouco do percurso de Júlio Resende, um trabalho criativo em constante transformação", diz o press release da exposição.
"Figura incontornável da arte portuguesa do séc. XX, Resende é um pintor de transição entre o figurativo e o abstracto com uma vasta obra pictórica. A sua pintura perde-se no tempo e na memória, criando universos intimistas onde a realidade serve de suporte ao gesto criativo", refere o texto.
A primeira exposição de Júlio Resende acontece em 1946, em Lisboa, cidade onde conhece Almada Negreiros. Volta a viver no Porto em 1951, ano em que ganha o prémio especial na Bienal de S. Paulo. O tema principal da sua pintura é, na altura, a gente do mar.
Professor do ensino secundário, arrecada em 1952 o Prémio da 7.ª Exposição Contemporânea dos Artistas do Norte, ano em que também executa um fresco da Escola Gomes Teixeira, Porto e faz investigação sobre desenho infantil.
"O desenho é expressão de um consciente que o particulariza", lê-se no site da Internet da Fundação Júlio Resende, instituição onde está reunido um espólio de cerca de dois mil desenhos do artista português. "Que o desenho seja entendido no seu mais amplo sentido. Não apenas restrito às artes-plásticas mas a todas atitudes criativas do homem. Não é monopólio de qualquer época nem de qualquer sociedade", afirmou o artista, responsável pela ilustração da obra de Fernando Namora "Retalhos da Vida de um Médico".
Pintura de cariz social e humano
Júlio Resende concluiu a Escola Superior de Belas-Artes em 1939. Visita Madrid e Paris, onde contacta com a pintura de Goya e Picasso, que irão influenciar a sua obra de estilo expressionista à qual se associa uma pintura dinâmica, geometrizante, que caminha progressivamente para a abstracção, assumindo algum cubismo picassiano, diz o texto de divulgação da exposição que amanhã inaugura em Lisboa.
Segundo o mesmo documento, de regresso a Portugal, na sua passagem pelo Alentejo (1949-1952) desenvolve uma estrutura pictórica triangular, onde o quotidiano é retratado de forma geométrica e por vezes quase abstracta.
Volta ao Porto e inicia um estilo novo, com um registo rectangular e pincelada mais solta e leve. Destaca-se em qualquer dos casos o carácter humanista dos seus quadros, em que a temática do trabalho e a vertente social são dominantes.
Renovador constante, após esta fase inicial com um discurso pictórico rígido em que pinta a vida pesarosa, difícil e cinzenta do povo, em 1971 viaja pelo Brasil e posteriormente África e Goa, responsáveis por uma nova mudança no seu estilo de pintura que privilegia agora a diagonal, base formal dos seus quadros onde a figura humana constitui elemento central, tornando-se o quotidiano tema constante.
Rapidamente se apercebe da importância da cor na vida árdua destas populações, dando-lhes ânimo para a encarar. Sente a necessidade de "mergulhar os pincéis no arco-íris" (Adriano Gusmão) com uma pintura mais espontânea, cheia de cor, atitude de grande sabedoria e humanismo com que quer ajudar o povo a ultrapassar a sua dura realidade.
Nunca é demais realçar o cariz fortemente social e humano da sua pintura "tudo o que sei aprendi com o meu semelhante, desde o mais humilde ao mais sábio" afirmou o artista, para quem a arte era "um sinal de vida (...) e um caminho para um mundo mais fraterno".
Fama internacional
Com uma carreira diversificada - pintura a fresco, vitral, painéis cerâmicos, ilustração de obras literárias e cenários teatrais - conta com uma numerosa obra mural, com destaque para a "Ribeira Negra" e a estação de Sete Rios do Metropolitano de Lisboa. Foi, ainda, director artístico do Grande Espectáculo de Portugal na Exposição Mundial de Osaka, em 1970.
Entre várias distinções salientam-se: Prémio Nacional de Pintura da Academia de Belas-Artes, Prémios Armando de Basto e Sousa Cardoso, Prémio Especial da Bienal de Arte de S. Paulo, 1º lugar no Concurso para o Monumento ao Infante D. Henrique, Medalha de Prata na Exposição Internacional de Bruxelas, 1º Prémio de Artes Gráficas na X Bienal de S. Paulo. Recebeu a Medalha de Ouro da Cidade do Porto, o Grau de Oficial da Ordem de Santiago de Espada em Portugal e da Ordem de Mérito Civil do Rei de Espanha, entre outras.
A obra de Júlio Resende está representada no Museu de Arte Moderna de São Paulo, Museu de Helsínkia ( Finlândia), Museu Aalesund Kubstforening (Noruega), Biblioteca Real Alberto (Bruxelas), Gabinete de Estampas (Antuérpia), sede da Unesco (Paris) e Museu Marítimo de Macau. E também no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian ( Lisboa), Museu Regional de Évora, Museu de Ovar, Museu Amadeo de Souza-Cardoso ( Amarante) e, ainda, Museu de Arte Contemporânea de Lisboa.
Até ao dia 9 de outubro, na Galeria do Acervo, podem ser vistos os 33 estudos para o painel cerâmico da estação Sete Rios do metropolitano de Lisboa, que é da sua autoria. A exposição "A Intuição Atenta à Razão" abriu há quase um ano.
Num texto de apresentação, publicado no site da Fundação Júlio Resende, o artista diz que o objetivo foi tornar o espaço "animado como uma continuidade do clima exterior". Júlio Resende explica que "dada a proximidade do Jardim Zoológico, entendi natural que a vida animal e vegetal servissem de motivação no tratamento das paredes e dos pavimentos. Os estudos foram feitos à exaustão mas a execução foi de um grande improviso respeitando o princípio que nenhum sinal é repetível!... Os azulejos foram realizados na Fábrica Viúva Lamego, em Sintra, onde sempre encontrei o melhor ambiente de trabalho e consideração".

In Lusa, 21 de Setembro de 2011





Livrarias mais Interessantes do Mundo - set. 2011

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As Bibliotecas mais Interessantes do Mundo - set. 2011

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Sabes porquê ?

PALAVRAS EM VÃO

Um nobre dinamarquês levou muito tempo a regressar ao seu país, depois de uma peregrinação à Terra Santa. Na viagem soube de muitas histórias, entre as quais a da morte, na costa africana, de um nativo e de um marinheiro português. Aconteceu que, no contacto entre eles, as palavras lhes faltaram, e não entenderam os gestos um do outro. Então, em movimentos defensivos, mataram-se com as próprias armas.
Um dia, o cavaleiro teve desejo de ir mais longe, de ir até às terras desconhecidas que surgiam do mar. Então resolveu alistar-se nas expedições portuguesas que navegavam para o sul à procura de novos países. Veio a Lisboa e aí embarcou numa caravela que partia a reconhecer e a explorar as costas de África. Seguiram das margens do Tejo para as Canárias, onde pararam alguns dias. Depois continuaram viagem, aproximaram-se da terra africana, dobraram o cabo Bojador e seguiram, à vista das costas desertas, queimadas pelo sol, sem árvores, e sem homens. Junto ao cabo Branco ancoraram o navio num abrigo formado por altos penedos.
Então, homens de pele sombria, envolvidos em mantos flutuantes e montados em camelos, vieram à orla da praia negociar com os portugueses. E as caravelas continuaram a navegar para o sul, muito para o sul. Uma brisa constante inchava as grandes velas e os mastros e os cabos gemiam docemente. Até que, para além das intermináveis costas nuas e vazias, sem árvores e sem sombra, surgiram as primeiras palmeiras.
Depois começaram a aparecer espessas e verdes florestas que cobriam toda a terra desde as praias brancas até aos distantes montes azulados. E dessas florestas surgiram homens nus e negros que embarcavam em pirogas e rodeavam os navios. Os marinheiros portugueses traziam ordem de se entenderem com eles. Mas isto era difícil. Em geral, as pirogas não chegavam ao alcance dos navios e outras vezes mesmo os negros desapareciam entre o arvoredo mal as caravelas ancoravam. Então os marinheiros que desembarcavam eram recebidos com flechas envenenadas dos homens escondidos.
Porém, havia paragens onde os africanos e os portugueses já se conheciam e negociavam. E às vezes, em lugares da costa onde nunca um navio tinha parado, acontecia serem acolhidos com festa e alvoroço. Então, bailando e cantando, os negros vinham ao encontro dos navegadores que, para corresponderem ao bom acolhimento, bailavam e dançavam também à moda da sua terra.
Mas o entendimento entre ambas as partes, muita vez, pouco mais avançava, pois uns e outros não entendiam as respectivas linguagens e mesmo os intérpretes berberes não conheciam a fala usada em tão longínquas paragens. Este desentendimento das línguas foi a causa de muitas mortes e combates.
Assim um dia a caravela ancorou em frente duma larga e bela baía rodeada de maravilhosos arvoredos. Na longa praia de areia branca e fina um pequeno grupo de negros espreitava o navio. Então o capitão resolveu mandar a terra dois batéis com homens para que tentassem estabelecer contacto com os africanos. Mas logo que os batéis tocaram na areia os negros fugiram e desapareceram no arvoredo.
— Talvez tenham tido medo por ver que nós somos muitos e eles são poucos — disse um português chamado Pêro Dias.
E pediu aos seus companheiros que lhe deixassem um batel e embarcassem todos no outro e se afastassem da praia. Mas os companheiros acharam este plano tão arriscado que não o quiseram aceitar. Porém, Pêro Dias insistiu tanto que eles acabaram por fazer como ele pedia e remaram para o largo. O português, mal ficou sozinho, caminhou até meio da praia e ali colocou panos coloridos que tinham trazido como presente. Depois recuou até à orla do mar, encostou-se ao batel que ficara e esperou.
Ao cabo de algum tempo saiu da floresta um homem que trazia na mão uma lança longa e fina e avançava negro e nu na claridade da praia. Avançava passo por passo, lentamente, vigiando os gestos do homem branco que junto do batel continuava imóvel. Quando chegou perto dos panos, parou e examinou com alvoroço a oferta. Depois ergueu a cabeça, encarou o português e sorriu. Este sorriu também e avançou uns passos. Houve uma pequena pausa. Depois, num acordo mútuo, os dois homens, sorrindo, caminharam ao encontro um do outro. Quando entre eles ficaram só seis passos de distância, pararam.
— Quero paz contigo — disse o branco na sua língua.
O negro sorriu e respondeu três palavras desconhecidas.
— Quero paz contigo — disse o branco em árabe.
O negro tornou a rir e repetir as palavras ininteligíveis.
— Quero paz contigo — disse o branco em berbere.
O negro sorriu de novo e mais uma vez respondeu as três palavras exóticas. Então Pêro Dias começou a falar por gestos. Fez o gesto de beber e o negro apontou-lhe a floresta. Fez o gesto de comer e o negro apontou-lhe a floresta. Com um gesto de convite o marinheiro apontou o seu batel. Mas o negro sacudiu a cabeça e recuou um passo. Vendo-o retrair-se, o português, para voltar a estabelecer a confiança, começou a cantar e dançar. O outro, com grandes saltos, cantos e risos, seguiu o seu exemplo. Em frente um do outro bailaram algum tempo.
Mas no ardor do baile e da mímica Pêro Dias ergueu no ar a sua espada, que faiscou ao sol. O brilho assustou o nativo, que deu um pulo para trás e estremeceu. Pêro Dias fez um gesto para o sossegar. Mas o outro começou a fugir, e o navegador precipitou-se no seu encalço e agarrou-o por um braço. Vendo-se preso, o negro principiou a debater-se, primeiro com susto, depois com fúria. Com gritos roucos e sílabas guturais respondia às palavras e aos gestos que o tentavam apaziguar. Ao longe, no mar, os companheiros de Pêro Dias avistaram a luta e principiaram a remar para a praia. O negro viu-os a aproximarem-se, julgou-se cercado e perdido e apontou a sua lança. Pêro Dias com a espada tentou aparar o golpe mas ambos caíram trespassados. Os portugueses saltaram do batel e correram para os corpos estendidos. Do peito do negro e do branco corriam dois fios de sangue.
— Olhem — disse um moço — o sangue deles é exactamente da mesma cor.
De bordo veio o capitão com mais gente e todos durante uma hora choraram o triste combate.
O sol subia no céu e aproximava-se o calor do meio-dia. Não sabendo quando voltariam a desembarcar, o capitão resolveu não levar para bordo o cadáver de Pêro Dias. Os dois corpos foram sepultados ali mesmo, na praia. E com a lança do gentio e a espada do cristão, os marinheiros fizeram uma cruz, que espetaram na areia entre os túmulos dos dois homens mortos por não poderem dialogar.
Chegado a este ponto da sua narrativa, o capitão flamengo calou-se uns momentos olhando o lume. O negociante serviu de novo vinho aos seus hóspedes e até altas horas continuaram a ouvir o marinheiro da Flandres contando as longínquas viagens, as ilhas desertas, as árvores descomunais, as tempestades, as calmarias, os povos misteriosos. No dia seguinte o Cavaleiro disse ao negociante que queria seguir por mar para a Dinamarca.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Porto, Edições Afrontamento, 2001 (adaptação)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011