PRINCESA DESENCANTADA

Quando alguma vez, em sonho ou viagem, voltar àquela
terra, não poderei esquecer a história que certa tarde lá ouvi.
Contou-ma um ancião, de olhar profundo e barba ruiva,
à hora em que me deu para subir ao ponto mais alto da cidade e ver de lá as
grandes torres espelhadas na água do rio que ali corre — rio de lágrimas que
uma princesa, um dia, então chorou.
Em tempos, este reino fora terra de encanto.
Deixou de o ser a partir do momento em que o rei
mandou prender a filha, na mais fortificada
masmorra da cidade, por ela achar infame a servidão
em que viviam os súbditos do reino.
— Esta é a história de Tristália — resmoneou o velho
— e como todas as histórias não é uma história perfeita: o fim parece o princípio e quem
uma vez a ouvir logo pedirá que ninguém a volte a repetir.
Fitando a mão trémula que apontava na direção do rio,
vi o desconhecido entrever o lugar onde se erguia a fortaleza em que a filha do
rei vivera encerrada. Então ele contou:
Desencantada, como a princesa, com a maldade que, às
ordens do rei, cumpria lei, Tristália deixou de ser terra de amor.
Dia e noite, a princesa não parava de chorar.
Recomendavam-na às cortes, os nobres, convidava-a o clero a arrepender-se,
mesmo temendo que sobre o povo desabassem novas iras do rei.
O mais arrasador dos desencantos, porém, devia-se ao
modo com que o rei Severo, seu pai,
tratava a rainha Edwiges, sua mãe. Escandalizavam-se
os chanceleres, o episcopado, a nação.
De banquete em banquete, o rei Severo é que não.
Por desígnio divino iluminada, resolveu a princesa
pôr fim à humilhação.
Qual segredo de estado, determinou sem demora escapar-se
da prisão, correr mundo, revoltar-se como só o faz quem tem razão.
Como mais vale fuga que espera, assim foi.
Em semanas conquistou as boas graças do guarda-mor
Epaminondas, e logo obteve a sela dum fogoso cavalo alazão.
Do tesoureiro Sigesmundo, em poucos dias, elevada
quantia em peças de oiro.
Do camareiro Malaquias, em horas, uma poderosa espada
de dois gumes.
Planeada a evasão, antes fugir que ficar mal.
Não ia ainda longe o cavaleiro embruxado, de armadura
e espada em riste, e já um mensageiro, ao serviço do rei, passava aviso por
terras de província e lugarejo.
Entraram as tropas em estado de alerta. Povoaram-se
de espias os postos de fronteira.
Um capacete de sombra abateu-se sobre o rosto dos
soldados entrincheirados nas esquinas.
À saída da cidade, um mendigo, que acorrera ao som de
tão ligeiro trote, interrompeu:
— Onde vos leva esta pressa de viver, senhor do
cavalo alazão?
Deixou-lhe o cavaleiro idade a menos que outra coisa
não tinha ali na ocasião!
Fugia de si mesmo, não do mundo, o cavaleiro, atrás
de si deixando um rasto de miséria e escravidão.
De uma casa em ruínas saiu, de filho ao colo, uma
mulher a quem a guerra encontrara vazio o coração:
— Quem feliz fará, um dia, Senhor meu, todo o oiro
que levais?
Deixou-lhe o cavaleiro o sol e a lua, que mágoas há
na vida que não esquecem mais.
Entretanto, podia alguém adivinhar quem, assim
disfarçado, segredava às ervas do caminho quantas vezes subidas honras, por
muito que se diga, desonras são?
À porta de um albergue, uma criança, fascinada pelo
anel de luz que, na corrida, cavalo e cavaleiro lanço a lanço envolvia, fê-los
estacar:
— Se na tua espada, Rosa Peregrina, a vontade do povo
assim confia, por que não voltas de pronto ao Palácio onde o terror da noite,
em boa hora se fez dia?
Deu meia volta o cavaleiro que de si tanto fugia.
Aclamado nas ruas de Tristália, juntou-se o foragido aos Pares do Reino que já
nas cortes buscavam herdeiro entre os bastardos que, do rei Severo, então
havia.
Largado o manto, aos pés, ninguém ousou dizer que
aquele misterioso cavaleiro a coroa não merecia.
— Não há outro encanto — comentou o velho, emocionado
— senão o que põe fim à reinação que os reis tiranos, quase sempre, espalham
por servidão gratuita ou por mania.
Vergílio Alberto Vieira, O Livro dos Enganos, Lisboa, Editorial Caminho, 2002 (Adaptação)