DIVULGAÇÃO DAS ATIVIDADES DA BIBLIOTECA ESCOLAR DE CACIA
quinta-feira, 29 de março de 2012
HISTÓRIA PARA LER E PENSAR...
Não há estranhos para mim
Há muito, muito tempo, quando eu era criança, o meu avô levou-me a visitar o seu pomar
― É o último bocadinho de terra que possuo, desde que vim viver para a cidade ― disse-me, enquanto cumprimentava toda a gente.
― Avô, como fazes para conhecer tanta gente? ― perguntei-lhe, enquanto corria para o acompanhar.
Ele parou para esperar por mim.
― Não os conheço pelo nome, conheço-os pelo coração. Sabes, querida, não há estranhos para mim.
― Porquê? ― perguntei, dando-lhe a mão.
Sorriu alegremente e respondeu:
― Porque eu e o meu coração somos livres.
Depois de caminharmos um pouco, disse:
— Sabias que, nos tempos tristes da escravatura, eu costumava andar com sementes de macieira no bolso, e acreditava que, quando fosse livre, haveria de as plantar no meu próprio pedacinho de terra?
― Não, não sabia.
― Um dia, dei-me conta de que isso só aconteceria quando nós mesmos lutássemos pela liberdade. Então, uma noite, fugimos.
― Quem é “nós”?
― Eu, a tua avó Polly e a tua mãe, que era bebé na altura ― respondeu, acariciando os meus caracóis. ― Tínhamos medo, claro, mas fomos cuidadosos.
Parou de falar, enquanto relembrava aqueles tempos…
― Quando chegámos ao Norte, já tínhamos passado por muitos estranhos e por muitos perigos. Estávamos junto ao rio Ohio e éramos quase livres, quando nos demos conta de que a fome e o cansaço eram demasiado grandes para continuarmos a andar. Então, escondemo-nos num celeiro ali perto. Dormimos toda a noite, como há muito não fazíamos. De madrugada, um homem veio mungir as vacas e a nossa bebé chorou. Ficámos petrificados. O nosso desespero era tanto que nos sentíamos capazes de atravessar o rio a nado, só para sermos livres! Nunca mais voltaríamos para trás!
Passados todos estes anos, o meu avô ainda tremia só de pensar naqueles tempos. Peguei-lhe na mão com força.
― O homem percebeu que não estava sozinho. Mas não olhou para a nossa cor; olhou para a nossa aflição. Era branco, mas ajudou-nos. Nunca me perguntou o nome, embora me dissesse o dele. Chamava-se James Stanton e era membro do Caminho-de-Ferro Clandestino.
― Oh! ― exclamei. ― Aquelas pessoas que ajudavam os escravos a viajar para o Norte?
― Aqueles que nos ajudaram quando mais precisávamos. James e a mulher, Sarah, não viram na tua mãe uma menina negra, apenas um bebé com fome. Deram-nos de comer e ajudaram-nos a atravessar o rio na noite seguinte.
― Isso é que foi sorte, avô! ― alegrei-me, agarrando-lhe a mão com força.
― Não sei se foi sorte, querida. Tínhamos de confiar em Deus. Tínhamos tomado a resolução correcta e nunca nos faltou a ajuda. E conseguimos. Sei o que é precisar de ajuda e recebê-la. Por mim, nenhum estranho ficará caído no chão sem que eu lhe estenda a mão.
Caminhámos em silêncio e o ar primaveril trazia até nós o cheiro fresco e doce das macieiras em flor.
― Quando chegámos ao Norte, a tua avó e eu trabalhámos arduamente para quem nos quisesse contratar. Arámos terra, apanhámos fruta, mungimos vacas, cosemos pão e ferrámos cavalos até termos dinheiro suficiente para comprarmos um pedaço de terra. Este!
E mostrou-me um belo pomar, cheio de macieiras em flor.
― Lembras-te das sementes com que eu andava sempre no bolso? Peguei nelas e plantei-as no nosso pedacinho de terra. De cada vez que plantava uma, lembrava-me de uma pessoa que me tinha ajudado. Olha para todas estas flores!
O meu avô tirou uma maçã de cada bolso.
― Essas vieram da tua cave, avô?
― Vieram. Guardei-as para as comermos juntos.
Sentámo-nos a comer.
― Avô, será que um dia poderei plantar uma semente de memória aqui?
O meu avô sorriu, comovido:
― Podes fazê-lo agora mesmo.
Plantei as sementes da maçã que comera. Enquanto isso, o meu avô observava os meus gestos, relembrando, sem dúvida, o que fizera muitos anos atrás.
― Não me esquecerei do que fizeste hoje ― disse o meu avô, levando a mão ao peito.
― E eu não esquecerei o que me contaste, avô.
E nunca esqueci.
― Então agora percebes por que razão não há estranhos para mim ― disse o avô, com uma alegria imensa estampada no rosto, enquanto acenava para o céu.
Ann Grifalconi; Jerry Pinkney
Ain’t nobody a stranger to me
New York, Hyperion Books for Children, 2007
(Tradução e adaptação)
terça-feira, 27 de março de 2012
HOJE É DIA MUNDIAL DO TEATRO
DIA MUNDIAL DO TEATRO – 27 DE MARÇO
O marco principal do surgimento do teatro foi a reunião de um grupo de pessoas numa pedreira, que se reuniram nas proximidades de uma fogueira para se aquecer do frio.
A fogueira fazia refletir a imagem das pessoas na parede, o que levou um rapaz a levantar-se e fazer gestos engraçados que se refletiam em sombras. Um texto improvisado acompanhava as imagens, trazendo a ideia de personagens fracas, fortes, oprimidos, opressores e até de Deus e do diabo.
A representação existe desde os tempos primitivos, quando os homens imitavam os animais para contar aos outros como eles eram e o que faziam; se eram bravos, se atacavam, ou seja, era a necessidade da comunicação entre os homens.
As homenagens aos deuses também favoreceram o aparecimento do teatro. Na época das colheitas da uva, as pessoas faziam encenações em agradecimento ao deus Dionísio (deus do vinho), pela boa safra de uvas colhidas; assim, sacrificavam um bode, trazendo para a comemoração os primeiros indícios da tragédia.
Os povos da Grécia Antiga transformaram essas encenações em arte, criando os primeiros espaços próprios, para que fossem divulgadas as suas ideias, as mitologias, agradecimentos aos vários deuses, entre outros assuntos.
O género trágico foi o primeiro a aparecer e retratava o sofrimento do homem, a sua luta contra a fatalidade, as causas da nobreza, numa linguagem bem rica e diversificada. Os maiores escritores da tragédia foram Sófocles e Eurípedes.
Nessa época, somente os homens podiam representar. Diante da necessidade de simular os papéis femininos, foram criadas as primeiras máscaras e mais tarde transformadas nas faces que representam a tragédia e a comédia; máscaras que simbolizam o teatro.
O género cómico surgiu para satirizar os excessos, as falsidades, as mesquinhezes. Um dos principais autores de comédia foi Aristófanes, que escreveu mais de quarenta peças teatrais.
Nas primeiras representações, a comédia não foi bem vista, pois os homens da época valorizavam muito mais a tragédia, considerando-a mais rica e bonita. Somente com o surgimento da democracia, no século V a.C., a comédia passou a ser mais aceite, como forma de ridicularizar os principais factos políticos da época.
In Wikipédia Livre (adaptado)
quarta-feira, 21 de março de 2012
UM CONTO PARA LER E REFLETIR.
O tesouro do peregrino
Ao início da manhã, a aldeia de In-Amènas não tinha ainda retomado as suas atividades habituais: alguns camponeses altivos, envoltos nos seus bournous (mantos de lã com capucho), falavam em voz alta, bebendo chá de menta.
Um grupo de homens em pé rodeava dois jogadores de dominó que dispunham lentamente as suas pedras numa pequena tábua oscilante. Um nómada que transportava vários feixes de raízes secas esperava pacientemente um eventual comprador… Os camelos, habituados ao grande erg (deserto de areia), e nervosos por se encontrarem num local fechado, rodeado de arcadas, soltavam roncos insuportáveis.
Nas casas baixas de paredes sem janelas, ouvia-se de vez em quando o barulho de um tear. Na parte inferior das pequenas lojas sombrias, os mercadores dormitavam de leque na mão. Numa pequena sala do andar térreo contígua à mesquita, o velho Taleb, com uma longa cana na mão, obrigava todas as crianças de cócoras diante de si a repetir versículos do Corão, e o ruído surdo das vozes roufenhas dos pequenos perdia-se nas ruas estreitas...
Mas eis que chega, pela porta norte da aldeia, um homem montado num camelo. Com imponência e lentidão, penetra pela poterna e para. O viajante afrouxa a rédea do animal e inclina a cabeça sobre o peito. De repente, veem-no cair na areia. Os que bebiam chá, os jogadores de damas, os mercadores e os artesãos, todos se precipitaram na direção do pobre que tentava falar…
Revirando os olhos, o que podia ser entendido como a angústia de um moribundo, o viajante sussurrou algumas palavras incompreensíveis, ao mesmo tempo que apontava, com uma mão trémula, para uma grande bolsa de couro que trazia presa à cintura. Em seguida, elevando um dedo para o céu, recitou a Fatiha (oração diária) … A cabeça voltou a pender sobre o ombro… Estava morto!
A multidão que, entretanto, se tinha aglomerado, estava imóvel. Quem seria ele? De onde viria? Para onde iria? Ninguém era capaz de responder. Prepararam o cadáver e enterraram-no, no dia seguinte, num pequeno cemitério situado bem longe das casas, por detrás das primeiras dunas.
Na sala do café, foi decidido fazer o inventário dos objetos que o desconhecido transportava no seu camelo e dos que se encontravam nele. Numa das bolsas, roupas; na outra, diversos objetos indispensáveis aos viajantes; mas, na grande bolsa de couro negro que trazia à cintura, descobriu-se, com estupefação, um tesouro! Colares, braceletes, diademas, anéis, fivelas, pedras preciosas e peças em ouro amontoavam-se na mesa do café…
Toda a gente se entreolhou em silêncio, mas todos pensavam o mesmo: “Que vamos fazer com estas riquezas? Reparti-las? Distribuí-las pelos pobres?” Estava instalada a discussão e cada um, querendo que a sua opinião fosse adotada, protagonizava uma rápida subida do tom de voz. Não tardariam as escaramuças. Seria mais avisado pedir a opinião da djemaa, o conselho dos anciãos.
Sob a autoridade do imã da mesquita, os dez anciãos de In-Amènas reuniram-se no dia seguinte. Foi decidido vender o camelo e o conteúdo das duas grandes bolsas e dar o dinheiro apurado aos pobres. Sábia decisão que todos aplaudiram. E o tesouro? Após longa e cuidadosa reflexão, o imã sentenciou que o tesouro seria enterrado na sepultura do desconhecido.
Esquecida a deceção, pensou-se que, afinal, fora esta a decisão mais acertada. Esse tesouro teria, porventura, despoletado invejas, rancores, porque cada um pensaria, certamente, que os outros teriam sido mais favorecidos que ele próprio. O tesouro desconhecido voltaria ao nada. Um buraco muito profundo foi cavado ao pé do túmulo e aí foi lançado o saco.
Passaram-se meses, passaram-se anos… A pequena aldeia de In-Amènas já tinha esquecido o incidente e retomado a sua vida normal. Os camponeses bebiam chá, outros jogavam dominó, os mercadores dormitavam e as crianças recitavam versículos do Corão… quando um dia, de repente, ecoaram imensos gritos que pareciam vir do cemitério… Quem podia gritar daquela maneira? Toda a gente correu na direção das sepulturas e, no sítio da do viajante desconhecido, viram o imã deitado ao pé da cova com os braços enterrados no buraco que havia escavado. Era ele que soltava aqueles gritos terríveis…
Os primeiros que chegaram puxaram-no pelos pés para o tirar daquela posição deplorável. Tempo perdido! As suas duas mãos estavam presas à bolsa de couro negro que parecia tão pesada como um rochedo de várias toneladas… Toda a gente compreendeu, então, que o imã tinha querido recuperar o tesouro e que se tinha ordenado que o enterrassem era para, mais tarde, o poder reaver.
Mas, no imediato, era necessário tirá-lo daquela posição miserável. Puxaram-no pelos braços, pelas pernas, pelo corpo… Em vão! Os mais caridosos construíram um pequeno abrigo de palmas sobre a cabeça do imã, evitando, assim, uma insolação. Só ao fim da tarde, vencido pela dor, é que o imã se sentiu obrigado a reconhecer a sua falta diante de toda a aldeia, que, entretanto, se tinha reunido à sua volta:
— Não passo de um ganancioso! Sou indigno da vossa confiança. O que fiz não tem perdão. Quis recuperar o tesouro e guardá-lo só para mim!
Mal acabou de proferir estas palavras, as mãos separaram-se da bolsa… Mas, quando se pôs de joelhos diante da sepultura, apenas tinha dois tocos queimados pelo fogo nas extremidades dos braços. Apressou-se a deixar a aldeia e foi esconder a sua vergonha numa das montanhas de Aïr.
Voltaram a tapar o buraco escavado pelo imã e todos tentaram esquecer o incidente.
Contudo, seria possível esquecer que na sepultura do viajante havia um tesouro digno de um rei? Seria possível ignorar que esse ouro poderia transformar um pobre camponês num senhor ainda mais rico que um sultão?
Ali não pensava noutra coisa, e refletia sem cessar… Foi assim que arquitetou um plano que lhe permitiria, no seu entender, recuperar o saco sem lhe tocar… Ali era burriqueiro. Ganhava a vida a transportar, com o seu animal, pedras, areia ou legumes. Montado no dorso do burro, tinha muito tempo para pensar no desenrolar do seu plano. No entanto, decidiu esperar alguns anos, o tempo necessário para fazer cair no esquecimento o que se tinha passado.
Quando chegou o momento que lhe parecia mais propício, saiu de noite e dirigiu-se ao cemitério. Tirou uma das duas pedras presas na sepultura e, com a pá, cavou um buraco onde sabia que se encontrava a bolsa com o tesouro. De facto, descobriu a bolsa de couro com as duas mãos do imã enegrecidas ainda coladas a ela, uma de cada lado. Não tocou em nada e, sentado junto à sepultura, esperou o nascer do sol.
De manhã, viu caminhar na sua direção o pequeno Mohamed. Mohamed era demasiado jovem para ter ouvido falar da bolsa com o tesouro. Conduzia um burro e dirigia-se ao palmeiral. Ali levantou-se e pediu-lhe que tivesse a amabilidade de descer à cova a fim de reaver a bolsa que, inadvertidamente, lhe tinha caído.
Mohamed parou e olhou para a bolsa no fundo do buraco:
— Mas por que é que tu não a podes ir buscar?
— Porque fiquei com uma dor nas costas, ontem ao fim do dia, — respondeu Ali, agarrando-se aos rins e esboçando um esgar de dor — não me posso baixar.
— Nesse caso, segura o meu animal que eu vou buscar a tua bolsa.
Mohamed desceu à cova, pegou na bolsa e subiu. Não viu que as duas mãos do imã se soltaram e rolaram para o fundo do buraco.
— Toma a tua bolsa — disse.
Ali estava felicíssimo: a maldição deixara de existir! Aproximou-se, agradeceu a gentileza a Mohamed e pegou na bolsa. Mas, de repente, soltou gritos de dor. As suas duas mãos ficaram presas à bolsa de couro e Ali quase desmaiou… E a bolsa rolou para o fundo da cova, arrastando-o com ela! Uma fumaça espessa emanava do corpo, que se calcinava, espalhando um odor infeto. Mohamed estava aterrorizado e não compreendia o que se passava; tentou puxar o seu companheiro pelos pés, mas depressa desistiu.
Alertados pelos gritos inumanos do ladrão, os habitantes da aldeia reuniram-se de novo à volta da sepultura… Os mais velhos sabiam muito bem o que estava a acontecer e pediram a Ali para reconhecer rapidamente a sua falta.
— Perdoai-me. Quis roubar o tesouro do viajante. Sou um ser indigno.
Nesse preciso momento, as mãos do ladrão separaram-se dos braços e permaneceram coladas à sacola. Quando se levantou, verificou que apenas tinha nas extremidades dos braços dois cotos enegrecidos pelo fogo do inferno. Apenas lhe restava fugir da aldeia se não quisesse ouvir as reprimendas dos amigos.
Mas a lenda não acaba aqui... Os anciãos da aldeia de In-Amènas reuniram-se e decidiram fazer desaparecer para sempre a bolsa que já tinha provocado tanta dor! Pediram, então, a Mohamed, para pegar nela – ele que nunca tinha pensado em roubar podia pegar-lhe sem dificuldade – e imploraram-lhe que a escondesse na montanha. Foi o que fez… e, logo que voltou à aldeia, ninguém lhe perguntou nada.
Pois bem, amigos, estão avisados: se, um dia, encontrarem numa gruta da montanha de Tassili N’Ajjer uma bolsa de couro negro, não toquem nela! Sabem bem o risco que corre!
Os anciãos de In-Amènas que contam esta lenda acrescentam para concluir: “A bolsa do tesouro é o que tu desejas. As mãos queimadas são os remorsos que te farão sofrer se pegares no que não te pertence. E o jovem Mohamed, que pode tocar na bolsa sem se ferir, é a felicidade prometida àquele que não tem maus pensamentos. No entanto, a bolsa escondida na montanha é também a esperança de nos tornarmos ricos um dia, mas na condição de sermos tão puros como o pequeno Mohamed! Parece não haver muita esperança para nós… mas, quem sabe? …”
André Voisin
Contes traditionnels du désert
Toulouse, Ed. Milan, 2002
(Tradução e adaptação)
terça-feira, 20 de março de 2012
quinta-feira, 15 de março de 2012
HOJE É DIA MUNDIAL DOS DIREITOS DO CONSUMIDOR
DIA MUNDIAL DOS DIREITOS DO CONSUMIDOR
Foi no dia 15 de março de 1962, que o presidente dos Estados Unidos da América, John Fritzgerald Kennedy, instituiu o Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, através de mensagem especial enviada ao Congresso Americano sobre proteção aos interesses dos consumidores, inaugurando o conceito dos direitos do consumidor. Essa ideia causou grande impacto, não somente naquele país, mas em todo o mundo.
São quatro os direitos fundamentais do consumidor:
O Direito à Segurança ou proteção contra a comercialização dos produtos perigosos à saúde e à vida. Foram criadas leis de proteção ao consumidor com a inclusão de produtos corrosivos, inflamáveis, radioativos.
O Direito à Informação, em que os aspetos gerais da propaganda e a necessidade das informações sobre o próprio produto e sua melhor utilização passaram a ser considerados.
O Direito à Opção, dando combate aos monopólios e às leis antitrustes e considerando a concorrência e a competitividade como fatores favoráveis ao consumidor.
O Direito a ser Ouvido, que passou a considerar os interesses dos consumidores na hora de elaborar políticas governamentais e de procedimentos de regulamentação. O Dia Mundial dos Direitos do Consumidor foi inicialmente comemorado em 15 de março de 1983. Em 1985, a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) adotou os Direitos do Consumidor assim enunciados como Diretrizes das Nações Unidas conferindo-lhes legitimidade e reconhecimento internacional”.
in Wikipédia Livre (adapatado)
quarta-feira, 14 de março de 2012
ABRA AS PORTAS AO SONHO E REFLEXÃO
Ana e a galinha pedrês
Todas as semanas, Ana ia ao campo à procura de alimentos. Levava a bicicleta, mas andava demasiado cansada para pedalar. Caminhava devagar, empurrando-a. Mas até isso fazia com que o seu coração batesse depressa. Ultimamente, sentia-se sempre cansada. E também desanimada. Nem aos agricultores restava qualquer legume. À exceção de algumas beterrabas que um homem lhe tinha dado, mais ninguém lhe dera ou vendera o que quer que fosse.
Esta história passou-se na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. A comida era escassa.
As pessoas, sobretudo as crianças, alimentavam-se mal e estavam sempre esfomeadas.
Todas as semanas, Ana ia ao campo à procura de alimentos. Levava a bicicleta, mas andava demasiado cansada para pedalar. Caminhava devagar, empurrando-a. Mas até isso fazia com que o seu coração batesse depressa. Ultimamente, sentia-se sempre cansada. E também desanimada. Nem aos agricultores restava qualquer legume. À exceção de algumas beterrabas que um homem lhe tinha dado, mais ninguém lhe dera ou vendera o que quer que fosse. Naquele instante, Ana apercebeu-se de que não podia continuar. Tinha de parar e descansar. Tombou a bicicleta, assegurando-se primeiro de que as beterrabas não caíam do cesto. Depois estendeu-se na relva fresca. Sonhou com comida. Parecia que, nos últimos tempos, todos os seus sonhos tinham a ver com comida. Desta vez, sonhou com cenouras douradas, cozidas a vapor, com natas e manteiga. Mesmo no sonho, Ana sabia que isto era uma loucura, porque não conseguia recordar-se de alguma vez ter comido manteiga ou natas. Mas a mãe tinha-lhe falado sobre isso e quase podia provar aquela delícia no seu sonho.
Sonhou, em seguida, com tomates, vermelhos e sumarentos. Havia um monte deles e Ana preparava-se para comer um, quando tudo desapareceu. Acordou de repente e sentou-se. Na sua frente estava uma galinha pedrês. Olharam uma para a outra. De repente, Ana apercebeu-se de que a galinha estava a falar. Pelo menos, estava a cacarejar e a falar da maneira que as galinhas falam.
― Por que é que estás a olhar para mim, sua tonta? ― perguntou Ana. ― Fazes tanto barulho que me acordaste.
― Cu-u-u-t… cu-u-u-t… ― disse a galinha, e recuou, assustada com a voz zangada de Ana.
Foi então que Ana viu o ovo! Pegou nele cuidadosamente. Ainda estava quente.
― Oh, minha linda, linda galinha! ― exclamou. ― Desculpa ter sido dura contigo. Obrigada por este ovo maravilhoso!
A galinha pedrês afastou-se e Ana ficou sozinha com o ovo. Agora que descansara, sentia-se melhor. Tinha de ir depressa para casa, dar o ovo à mãe. Talvez pudessem comer uma omeleta pequenina! Ana tirou o lenço que usava na cabeça. Com cuidado, embrulhou o ovo e pô-lo delicadamente no cesto, juntamente com as beterrabas. Montou na bicicleta e começou a subir a estrada. Mas um pensamento triste tomou conta dela. Na verdade, o ovo não lhe pertencia. Pertencia ao dono da galinha pedrês. Ana começou a pedalar cada vez mais devagar. “Não”, disse energicamente para si mesma, “o ovo é meu. A galinha pô-lo mesmo ao meu lado enquanto eu dormia.” Continuou a subir a estrada. “De qualquer forma, não sei de quem é a galinha. E mesmo que soubesse, ninguém ia adivinhar que eu tenho o ovo.”
Havia uma casinha branca perto da estrada. “Não conseguem ver nada”, disse Ana para consigo. “Tenho o ovo todo coberto.” Começou a pedalar mais depressa. Mas parecia que a bicicleta ia cada vez mais devagar. E, quando chegou perto da casa branca, as pernas já não conseguiam pedalar. Muito lentamente, desceu da bicicleta e dirigiu-se à casa.
― Sim? ― perguntou a jovem mulher que veio à porta.
Com muita relutância e o sonho da pequena omeleta a desvanecer-se rapidamente, Ana indagou:
― Tem… tem… uma… uma galinha pedrês?
― Sim, temos ― respondeu a mulher.
Lenta e cuidadosamente, Ana tirou o ovo do lenço e entregou-o à mulher.
― Então isto também lhe pertence ― disse numa voz quase inaudível.
― Oh, muito obrigada. Aquela galinha anda sempre a vaguear e a deixar os ovos nos sítios mais improváveis. É a única que nos resta e precisamos dos ovos dela para o nosso pequeno. É que ele está muito doente.
Ana preparava-se para ir embora. A jovem mulher parecia perturbada.
― Foste tão amorosa ― disse. ― Gostaria de te dar algo para pores no cesto. Mas não temos quase nada. Eu… eu não tenho nada para te dar.
― Não faz mal ― disse Ana.
E montou outra vez na bicicleta. Ansiava por sair de perto daquela casa, da galinha pedrês e do ovo maravilhoso. Quando chegou a casa, Ana contou à mãe o que se tinha passado. Teve medo que a mãe lhe ralhasse por chegar tarde e por só trazer algumas beterrabas. Quem sabe se até se zangaria por Ana não ter ficado com o ovo…Mas a mãe apenas acariciou o cabelo de Ana e olhou-a durante muito tempo, sorrindo.
― Então não ficou zangada comigo, mãe? Não lhe parece que sou nova demais para ir ao campo tentar arranjar legumes?
― Não, Ana. ― disse a mãe. ― Estou aqui a pensar na filha maravilhosa que tenho. Quando se anda sempre com tanta fome, só um verdadeiro adulto poderia ter tomado uma decisão tão difícil.
Ruth Hunt Gefvert
in "Contadordehistórias (adapatado) "
quinta-feira, 8 de março de 2012
DIA INTERNACIONAL DA MULHER - 8 DE MARÇO
O Dia Internacional da Mulher, celebrado a 8 de março, tem como origem as manifestações das mulheres russas por melhores condições de vida e trabalho e contra a entrada do seu país
na Primeira Guerra Mundial. Essas manifestações marcaram o início da Revolução de 1917. Entretanto a ideia de celebrar um dia da mulher já havia surgido desde os primeiros anos do século XX, nos Estados Unidos e na Europa, no contexto das lutas de mulheres por melhores condições de vida e trabalho, bem como pelo direito de voto.
No Ocidente, o Dia Internacional da Mulher foi comemorado no início do século, até a década de 1920.
Na antiga União Soviética, durante o stalinismo, o Dia Internacional da Mulher tornou-se elemento de propaganda partidária.
Nos países ocidentais, a data foi esquecida por longo tempo e somente recuperada pelo movimento feminista, já na década de 1960. Na atualidade, a celebração do Dia Internacional da Mulher perdeu parcialmente o seu sentido original, adquirindo um caráter festivo e comercial. Nessa data, os empregadores, sem certamente pretender evocar o espírito das operárias grevistas do 8 de março de 1917, costumam distribuir rosas vermelhas ou pequenos mimos entre as suas empregadas.
Em 1975, foi designado pela ONU como o Ano Internacional da Mulher e, em dezembro de 1977, o Dia Internacional da Mulher foi adotado pelas Nações Unidas, para lembrar as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres.
in Wikipédia Livre (adaptado)
quarta-feira, 7 de março de 2012
CONTO TRADICIONAL INDIANO
Annapurna, a minha mãe é uma deusa
Veena vive em Bombaim, uma grande cidade da Índia, à beira-mar.
A casa onde Veena vive é apenas um barracão com um corredor comprido e muitos quartos, um para cada família. Cada quarto tem cinco passadas de comprimento e três de largura. Para terem mais espaço, o pai acrescentou uma assoalhada entre o chão e o teto, onde, em cima de esteiras, dormem Veena, os irmãos e irmãs, e os pais. Veena tem dois irmãos, Shivaji e Goga, e três irmãs, Shaya, Najma e Rukminidevi. Rukminidevi ainda é bebé e todos lhe chamam Ruki.
Uma corda estendida ao longo do quarto serve para pôr a roupa a secar. Não há armários, por isso estão penduradas nas paredes muitas panelas, conchas, sertãs e outros utensílios. Por debaixo da janela há dois fogareiros e, ao lado, duas prateleiras de madeira com muitas ervas aromáticas, legumes e peixe secos, onde também estão encostados os sacos com o arroz, as lentilhas e os cereais. Está tudo muito limpo e arrumado, porque a mãe é uma Annapurna. Veena tem orgulho na mãe. Ser uma Annapurna não significa apenas ser cozinheira: significa ser uma deusa. A deusa Annapurna é a deusa da alimentação. Há muitas Annapurnas nos barracões, como a mãe de Veena, que cozinham para os empregados têxteis que trabalham na fábrica do Sr. Madanis.
Como o pai está doente há muito tempo e já não pode ir trabalhar para a fábrica, a mãe é a única que sustenta a família. Embora já tenha nove anos, Veena não pode ir à escola. Ela e Shaya, a irmã, têm de ajudar a mãe. Limpar vegetais, moer especiarias e lavar arroz ou lentilhas são coisas que também elas já sabem fazer.
Todos os dias, pelo meio-dia, Veena e a mãe pegam nos sacos e nos cestos, e vão ao mercado. Normalmente, está muito calor, mas a mãe não pode ir noutra altura. Os comerciantes, indolentes, descansam à sombra das suas lojas, bancas, carrinhos de mão e mesas. Costumam comprar muita coisa: peixe seco, legumes, trigo, azeite, carne e, por vezes, peixe fresco também. Veena não gosta do peixe fresco. Cheira muito mal e, além disso, está sempre envolto numa nuvem de moscas. Quando a mãe levanta um para ver se é mesmo fresco, as moscas fogem e há sempre algumas que tentam poisar na cara de Veena, que as sacode. Mas elas são teimosas e voltam sempre. Ainda bem que a mãe raramente compra peixe fresco. O peixe seco é mais barato e aguenta mais tempo.
A mãe há muito que conhece a maior parte dos vendedores, e cumprimenta-os pelo nome. Também eles a conhecem e são simpáticos com ela, pelo menos enquanto olha e escolhe, mas, mal pergunta o preço, tornam-se sérios. Começam a regatear e, às vezes, demoram muito tempo. A mãe não desiste enquanto não consegue um bom preço. Alguns vendedores fingem que choram de aflição, outros praguejam:
– Deixa estar, Kirrisushi, da próxima vez não me enganas!
Mas, quando a mãe volta a aparecer, são tão simpáticos como dantes. A mãe sabe disso e sorri.
– O que seria um comerciante sem os compradores? – disse uma vez a Veena. – Nada. Nós precisamos dele e ele precisa de nós.
No mercado, Veena caminha em silêncio ao lado da mãe. Há tanta gente! As pessoas abrem caminho às cotoveladas, calcam os pés umas das outras e fazem-se de muito importantes. Veena sente-se insignificante. Do barulho, pelo contrário, Veena gosta muito. É completamente diferente do barulho das salas da fábrica. Alguns comerciantes anunciam os seus produtos com ditos muito engraçados, outros juram por todos os deuses que os seus são os mais frescos, embora qualquer pessoa veja que as bananas já estão muito escuras e que as maçãs estão tocadas.
Os pregões são abafados pelo som estridente dos rádios transístores. Cada vendedor sintonizou uma estação diferente e todas se misturam umas com as outras, numa grande confusão de ruídos. Mesmo assim, Veena consegue apanhar uma melodia que lhe agrada e fixa-a. Trauteia-a depois baixinho enquanto está no mercado e depois, quando ela e a mãe regressam a casa, cada uma com um saco à cabeça e um cesto em cada mão. Com uma melodia, Veena esquece até o peso da carga, e é capaz de se sentir feliz uma tarde inteira.
Hoje, ouviu uma melodia particularmente bonita, tocada por um flautista sentado entre duas bancas. À direita e à esquerda havia rádios a tocar, mas ele prosseguia, persistente e alheado, a sua melodia melancólica. Até a mãe gostou e parou algum tempo para ouvir, coisa que nunca faz. E agora trauteia-a juntamente com Veena.
– Eu já tinha ouvido esta música e acho que foi quando era pequena – diz a mãe, ao ver Veena olhar para ela, admirada.
Veena não consegue imaginar que a mãe já tenha sido criança, mas é claro que teve de ser. Será que era parecida com ela? Ou antes com Shaya? No preciso momento em que pensava nisto, Veena ouve muitos gritos atrás dela:
– Ladrão! Pára!
– Ali! Ali vai ele a correr!
Vira-se e assusta-se: Goga! É Goga quem fura por entre a multidão, sem olhar para a direita nem para a esquerda, e desaparece na confusão. Dois ou três vendedores correm atrás dele, mas não conseguem apanhá-lo.
A mãe também ouviu os gritos e viu Goga. Ainda há pouco sorria e cantava baixinho, mas agora, de repente, parece muito cansada. Até chegarem a casa, Veena não se atreve a dizer mais nada. Já não é a primeira vez que Goga rouba. A mãe ralha muitas vezes com ele por causa disso, mas Goga volta sempre a repetir. De volta ao barracão, a mãe pousa primeiro os cestos e depois tira o saco da cabeça. A seguir, chama Shaya.
– Viste o Goga?
Shaya não viu o irmão nem coisa nenhuma. Aproveitou a ausência da mãe para dormir mais um pouco, o que se vê pela cara inchada e pelos olhos mortiços. A mãe pergunta ao pai, mas ele também não o viu. Esteve todo o tempo deitado na esteira, e, em casa, o Goga não esteve. Também não o ouviu. E Najma esteve a tomar conta de Ruki. Isso já é trabalho que chegue. Ruki é tão selvagem que Najma não pode tirar os olhos de cima dela nem por um segundo. A mãe não descansa. Corre para fora e pergunta aos rapazes que estão em frente do barracão. Mas também eles não viram Goga desde manhã cedo. Nem Shivaji sabe onde possa estar o irmão. Veena está ao pé da mãe e ouve-a perguntar por ele, preocupada. Não diz que Goga roubou no mercado. Não quer que se fale por aí, mas fica zangada com Shivaji por ele não saber por onde anda Goga. Shivaji tem dezasseis anos, Goga, catorze. Shivaji devia olhar m ais pelo irmão. Shivaji faz uma careta. Está a jogar com os amigos e não quer ser incomodado.
A mãe volta para o barracão, mas Veena ainda fica sentada por algum tempo a ver os rapazes. Colocaram uma lata à frente deles e tentam cuspir lá para dentro. Quem falhar fica de fora. Todos os que acertaram dão um passo atrás e voltam a cuspir para ver quem vence a aposta. Ao fim de bastante tempo, ficam só dois. Um deles é Shivaji. Inclina-se para a frente, porque a distância à lata é já muito grande, mas, mesmo assim, acerta. O outro não. Shivaji ganhou. Dá a volta por todos os rapazes e recebe de cada um deles uma moeda. Depois, o jogo recomeça. Veena procura Goga, mas não o vê em lado nenhum. Tem dois irmãos tão diferentes! Goga é um vadio, sempre metido em sarilhos. Shivaji prefere ficar por casa e ganhar algum dinheiro aos outros. Será que é por ter o nome do deus Shivaji que ele é assim tão hábil? Veena suspira. Por vezes, gostaria de dizer aos irmãos que não deviam dar tantas preocupações à mãe. Mas claro que não pode dizer nada. Ela é só uma rapariga, e um dia vai casar e partir. Shivaji e Goga ficarão com os pais e, um dia, vão alimentá-los.
– Veeeeena!
A mãe! Veena levanta-se depressa e corre para junto da mãe. Tem de cortar ervas aromáticas, lavar arroz e moer especiarias. Não há muito tempo para pensar.
Goga só aparece à noite. Não sabe que Veena e a mãe o viram. Tem um cigarro enfiado no canto da boca, um sorriso irónico espalhado pela cara, e parece muito satisfeito. A mãe não contou nada ao pai sobre o roubo. Só Veena sabe. A mãe não lhe faz qualquer reparo, porque continua a não querer que o pai saiba, e dá-lhe a porção de arroz. Só o olhar é que deixa adivinhar alguma coisa. Goga repara nisso, e o sorriso desaparece-lhe.
– Aconteceu alguma coisa? – pergunta em voz baixa.
A mãe continua calada. Só quando Goga acaba de comer é que lhe faz sinal para ir até à frente da barraca. Veena segue-os. Se viu o que Goga fez, também quer saber o que a mãe vai dizer-lhe. Está escuro, em frente da barraca. Veena agacha-se junto ao caixote do lixo e olha para os dois. Só distingue as sombras, mas consegue ouvir tudo.
– Goga! – exclama a mãe em voz baixa. – Goga! Goga! Goga!
E depois pergunta:
– O que é que roubaste?
– Eu? – Goga faz-se de admirado. – Absolutamente nada!
– Não mintas! – ralha a mãe. – Eu vi-te. Tu tornaste a roubar, embora me tivesses prometido que não tornavas!
Goga fica calado.
– Então, o que é que roubaste?
– Uma galinha.
– E o que fizeste com ela?
Goga baixa ainda mais a cabeça e volta a calar-se. A mãe fica furiosa. Agarra Goga pelos ombros e sacode-o.
– Nós somos pessoas honestas, ouviste? Nós não roubamos. Temos comida e um teto, estamos bem. Não temos razão nenhuma para roubar.
Veena não consegue ver, mas sabe que Goga está a fazer cara de amuado. Goga quer um dia ser rico a sério. Foi ele que lhe disse. Ter a barriga cheia e um teto sobre a cabeça não lhe chega.
– O que fizeste com a galinha? – insiste a mãe. – Fala, de uma vez por todas!
– Eu… eu vendi-a – diz Goga por fim.
– E o que fizeste com o dinheiro?
Goga volta a calar-se. A mãe perde a paciência.
– Se não mo queres dizer a mim, di-lo ao pai.
Isso Goga não quer.
– Eu… eu comprei um bilhete para ir ao cinema.
– Tu foste ao cinema?
Goga acena com a cabeça e depois desata a chorar.
– Há tantos rapazes que vão ao cinema. Eu também queria…
Não diz mais nada. A mãe tapa-lhe a boca. Ninguém deve saber da conversa que tiveram um com o outro.
– Ainda tens dinheiro? – pergunta em voz baixa.
– Sim – confessa Goga.
– Leva-o ao templo. Oferece-o a Shiva. Talvez ele te perdoe.
Goga acena com a cabeça e depois sai imediatamente para seguir o conselho da mãe. Pelo menos, faz como se fosse segui-lo. Ainda por um momento, Veena segue o irmão com o olhar, e depois vai atrás da mãe para continuar a ajudá-la. Mas agora o trabalho já não é importante. O que Goga acabou de dizer é simplesmente extraordinário. Foi ao cinema e viu um filme a sério? Ela nunca foi ao cinema, só conhece os cartazes coloridos, onde se veem mulheres bonitas, homens a lutar, ou um casal de apaixonados.
Mira, a vizinha, também já foi ao cinema. Isso foi há bastante tempo, mas ela conta o filme muitas vezes. À mãe já contou duas, e, de ambas as vezes, Veena pôde ouvir. Desde então, também ela deseja poder ir ver um filme. O filme de Mira tinha sido muito bonito. Aparecia uma flor mágica, mas depois um demónio roubava-a, e um jovem deus tinha de voltar a encontrá-la. Deve ser maravilhoso viver uma história daquelas. Mira diz que nunca tinha chorado nem rido tanto como no cinema. E que todas as outras pessoas também tinham rido e chorado.
De noite, Veena está acordada e olha para Goga. Está muito escuro e não consegue vê-‑lo bem, mas sabe exatamente onde ele está deitado. Cautelosamente, chega-se a ele às apalpadelas. Shivaji acorda e agarra na bolsa com as moedinhas que escondeu debaixo da esteira. É o seu ganho. Hoje teve muita sorte no jogo.
– Sou eu – sussurra Veena, chegando-se para mais perto de Goga.
Shivaji resmunga em voz baixa, mas não se atreve a falar mais alto. Se o pai apanha a bolsa, fica com ela. Goga ainda está acordado, deitado de costas, a olhar para a escuridão. Veena toca-lhe ligeiramente.
– Sou eu.
– O que é que queres?
Goga não quer ser incomodado. Talvez esteja a pensar no filme.
– Foi bonito no cinema?
– Foi.
– O filme foi interessante?
– O que é que achas? Claro que sim.
– Conta-mo!
– Agora?
– Sim, por favor! Eu nunca fui ao cinema.
Goga conta-lhe então o filme, e fá-lo de boa vontade. Estava mesmo a pensar nele. Veena vê tudo à sua frente: a bela princesa, que foi assaltada por um bandido, o príncipe, que ama a princesa e que tem de lutar contra o bandido, a grande festa em honra do príncipe, por ele ter vencido o bandido. Quando Goga acaba, Veena chora.
– O que foi? – sussurra Goga. – Por que estás agora a chorar?
– Também gostava de ir uma vez ao cinema.
Primeiro, Goga fica em silêncio. Depois diz, com um ar duro:
– Quem quer ir ao cinema tem de roubar.
Roubar? Não! Disso, ela nunca será capaz! Sem barulho, Veena volta para a sua esteira e torna a pensar na princesa do filme de Goga. Depois, no bandido e no príncipe… De repente, no meio das imagens, vê a bolsa de Shivaji. Será que o dinheiro que está lá dentro chegaria para um bilhete de cinema? Veena começa a sentir-se muito quente. Não pode pensar aquilo em que está a pensar. Ela não é nenhuma ladra. Mas Shivaji é seu irmão… E ele ganhou o dinheiro no jogo… Se o pai o apanha, também lho vai tirar. Com cuidado, Veena chega-se mais perto de Shivaji. Encolhe a mão e fá-la deslizar por baixo da esteira de Shivaji. Ah, ali está a bolsa. Só precisa de a puxar e… – Veena!
A mãe procura-a na esteira dela! Veena volta depressa para o seu lugar.
– Sim?
– Levanta-te, já são horas! Hoje tens de me ajudar mais cedo. Vou fazer um pulao.
Um pulao é um prato especial que dá muito trabalho. A mãe não sabe que ela não dormiu nada durante a noite. Veena levanta-se e segue-a pelas escadas abaixo.
– Eu sozinha não consigo, sabes? – diz a mãe, quando acabaram de descer.
Veena apenas acena com a cabeça. Está agradecida à mãe por tê-la salvo, se não, os deuses de certeza que a teriam castigado. E, além disso, ela nem sequer teria tempo para ir ao cinema...
Klaus Korkon
Annapurna, a minha mãe é uma deusa
Munique, DTV Junior, 1989
(Tradução e adaptação)
terça-feira, 6 de março de 2012
segunda-feira, 5 de março de 2012
sexta-feira, 2 de março de 2012
POEMA A CONCURSO " FAÇA LÁ UM POEMA"
QUANDO FOR GRANDE
Quando for grande
Tenho um objetivo:
Ser médica ou curandeira
Para poder ajudar os outros
A minha vida inteira.
Para que mais tarde
Eu me possa orgulhar
E ter o meu emprego.
Todo o sofrimento
Da alma ou do corpo
É esse o meu pensamento.
Para quando for grande
Eu poder trabalhar
E a minha profissão ter.
Aonde eu vivo e o que me rodeia
Os animais e as pessoas
E ver as coisas de outra maneira.
Um bom caminho pela vida
Com felicidade e carinho
Pois agora estou de saída.
Quando for grande
Tenho um objetivo:
Ser médica ou curandeira
Para poder ajudar os outros
A minha vida inteira.
Eu quero ser médica
E tenho de me empenharPara que mais tarde
Eu me possa orgulhar
E ter o meu emprego.
Na minha profissão
Quero aos outros tirarTodo o sofrimento
Da alma ou do corpo
É esse o meu pensamento.
A mãe e o pai insistem
Para eu estudar a valerPara quando for grande
Eu poder trabalhar
E a minha profissão ter.
Quando crescer
Queria conhecer melhor o mundoAonde eu vivo e o que me rodeia
Os animais e as pessoas
E ver as coisas de outra maneira.
E agora para terminar
A todos vou desejarUm bom caminho pela vida
Com felicidade e carinho
Pois agora estou de saída.
Sandra Inês Henriques Leonor, 5A, Nº11, 10 Anos
quinta-feira, 1 de março de 2012
OS NOVOS INVASORES DVD
Cacia, março de 2012
O Professor Bibliotecário
Jorge Monteiro
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