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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A CONSPIRAÇÃO - UM FILME A NÃO PERDER!

FRASE DO DIA

"Aquele que não precisa de nada, tudo lhe falta."

FAZ HOJE 121 ANOS - REVOLTA REPUBLICANA DO PORTO

A REVOLTA DE 31 DE JANEIRO DE 1891

A Revolta de 31 de janeiro de 1891 foi o primeiro movimento revolucionário que teve por objectivo a implantação do regime republicano em Portugal. A revolta teve lugar na cidade do Porto.
As causas
O Mapa Cor-de-Rosa, que originou o ultimato britânico de 1890.No dia 31 de janeiro de 1891, na cidade do Porto, registou-se um levantamento militar contra as cedências do Governo (e da Coroa) ao ultimato britânico de 1890 por causa do Mapa Cor-de-Rosa, que pretendia ligar, por terra, Angola a Moçambique.
A 1 de janeiro de 1891 reuniu-se o Partido Republicano em congresso, de onde saiu um diretório eleito constituído por: Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, Homem Cristo, Jacinto Nunes, Azevedo e Silva, Bernardino Pinheiro e Magalhães Lima. Estes homens apresentaram um plano de ação política a longo prazo, que não incluía a revolta que veio a acontecer, no entanto, a sua supremacia não era reconhecida por todos os republicanos, principalmente por aqueles que defendiam uma ação imediata. Estes, além de revoltados pelo desfecho do episódio do Ultimato, entusiasmaram-se com a recente proclamação da República no Brasil, a 15 de Novembro de 1889.
As figuras cimeiras da "Revolta do Porto", que sendo um movimento de descontentes grassando sobretudo entre sargentos e praças careceu do apoio de qualquer oficial de alta patente, foram o capitão António Amaral Leitão, o alferes Rodolfo Malheiro, o tenente Coelho, além dos civis, o Dr. Alves da Veiga, o actor Miguel Verdial e Santos Cardoso, além de vultos eminentes da cultura como João Chagas, Aurélio da Paz dos Reis, Sampaio Bruno, Basílio Teles, entre outros.
O acontecimento
A revolta tem início na madrugada do dia 31 de janeiro, quando o Batalhão de Caçadores nº9, liderados por sargentos, se dirigem para o Campo de Santo Ovídio, hoje Praça da República, onde se encontra o Regimento de Infantaria 18 (R.I.18). Ainda antes de chegarem, junta-se ao grupo, o alferes Malheiro, perto da Cadeia da Relação; o Regimento de Infantaria 10, liderado pelo tenente Coelho; e uma companhia da Guarda Fiscal. Embora revoltado, o R.I.18, fica retido pelo coronel Meneses de Lencastre, que assim, quis demonstrar a sua neutralidade no movimento revolucionário.
Os revoltosos descem a Rua do Almada, até à Praça de D. Pedro, (hoje Praça da Liberdade), onde, em frente ao antigo edifício da Câmara Municipal do Porto, ouviram Alves da Veiga proclamar da varanda a Implantação da República. Acompanhavam-no Felizardo Lima, o advogado António Claro, o Dr. Pais Pinto, Abade de São Nicolau, o Ator Verdial, o chapeleiro Santos Silva, e outras figuras. Verdial leu a lista de nomes que comporiam o governo provisório da República e que incluíam: Rodrigues de Freitas, professor; Joaquim Bernardo Soares, desembargador; José Maria Correia da Silva, general de divisão; Joaquim d'Azevedo e Albuquerque, lente da Academia; Morais e Caldas, professor; Pinto Leite, banqueiro; e José Ventura Santos Reis, médico.
Foi hasteada uma bandeira vermelha e verde, pertencente a um Centro Democrático Federal. Com fanfarra, foguetes e vivas à República, a multidão decide subir a Rua de Santo António, em direção à Praça da Batalha, com o objetivo de tomar a estação de Correios e Telégrafos.
No entanto, o festivo cortejo foi barrado por um forte destacamento da Guarda Municipal, posicionada na escadaria da igreja de Santo Ildefonso, no topo da rua. O capitão Leitão, que acompanhava os revoltosos e esperava convencer a guarda a juntar-se-lhes, viu-se ultrapassado pelos acontecimentos. Em resposta a dois tiros que se crê terem partido da multidão, a Guarda solta uma cerrada descarga de fuzilaria vitimando indistintamente militares revoltosos e simpatizantes civis. A multidão civil entrou em debandada, e com ela alguns soldados.
Os mais bravos tentaram ainda resistir. Cerca de trezentos barricaram-se na Câmara Municipal, mas por fim, a Guarda, ajudada por artilharia da serra do Pilar, por Cavalaria e pelo Regimento de Infantaria 18, força-os à rendição, às dez da manhã. Terão sido mortos 12 revoltosos e feridos 40.
O desfecho
Alguns dos implicados conseguiram fugir para o estrangeiro: Alves da Veiga iludiu a vigilância e foi viver para Paris: o jornalista Sampaio Bruno e o Advogado António Claro alcançaram a Espanha, assim como o Alferes Augusto Malheiro, que daí emigrou para o Brasil.
Os nomeados para o "Governo Provisório" trataram de esclarecer não terem dado autorização para o uso dos seus nomes. Dizia o prestigiado professor Rodrigues de Freitas, enquanto admitia ser democrata-republicano: "mas não autorizei ninguém a incluir o meu nome na lista do governo provisório, lida nos Paços do Concelho, no dia 31 de janeiro, e deploro que um errado modo de encarar os negócios da nossa infeliz pátria levasse tantas pessoas a tal movimento revolucionário."
A reação oficial seria como de esperar, implacável, tendo os revoltosos sido julgados por Conselhos de Guerra, a bordo de navios, ao largo de Leixões: o paquete Moçambique, o transporte Índia e a corveta Bartolomeu Dias. Para além de civis, foram julgados 505 militares. Seriam condenados a penas entre 18 meses e 15 anos de degredo em África cerca de duzentas e cinquenta pessoas. Em 1893 alguns seriam libertados em virtude da amnistia decretada para os então criminosos políticos da classe civil.
Em memória desta revolta, logo que a República foi implantada em Portugal, a então designada Rua de Santo António foi rebaptizada para Rua de 31 de Janeiro, passando a data a ser celebrada dado que se tratava da primeira de três revoltas de cariz republicano efectuadas contra a monarquia constitucional (as outras seriam o Golpe do Elevador da Biblioteca, e o 5 de Outubro de 1910.
In wikipédia livre (adapatado)

O sonho de "O Homem Invísivel" está mais perto

http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=2272389

Coimbra cria medicamento que prevê cancro

http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=2273836&seccao=Sa%FAde

Cientistas desenvolvem método de identificação de castas

http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=2274389

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

FRASE DO DIA

"Se um grande homem cair, mesmo depois da queda, ele continua grande."

UMA HISTÓRIA VERIDICA COM MAIS DE 60 ANOS

A Estrela de Erika

Entre 1933 e 1945, seis milhões de homens e mulheres do meu povo foram mortos. Muitos foram fuzilados. Muitos morreram de fome. Muitos foram incinerados nos fornos ou asfixiados nas câmaras de gás. Eu escapei.
Nasci em 1944. Não sei o dia. Não sei como me chamava ao nascer.
Não sei em que cidade nem em que país nasci. Não sei se tive irmãos ou irmãs.
O que sei é que, apenas com alguns meses, escapei ao Holocausto. Imagino muitas vezes como seria a vida dos membros da minha família durante as últimas semanas que passámos juntos. Imagino o meu pai e a minha mãe, despojados de todos os seus bens, forçados a abandonar a sua casa, enviados para o gueto. Talvez depois tenhamos sido expulsos do gueto. De certeza que os meus pais tinham pressa de deixar o bairro rodeado de arame farpado para onde tinham sido relegados, de escapar ao tifo, ao excesso de pessoas, à imundície e à fome. Mas teriam alguma ideia do local para onde estavam a ser enviados? Ter-lhes-iam dito que iam para um local mais acolhedor, onde teriam comida e trabalho? Terão chegado até eles os rumores sobre os campos da morte?
Pergunto-me o que terão sentido quando os conduziram à estação, juntamente com centenas de outros judeus. Amontoados num vagão de transporte de animais. De pé, uns contra os outros, por falta de espaço. Terão entrado em pânico quando ouviram correr os ferrolhos? De aldeia em aldeia, o comboio deve ter atravessado paisagens campestres estranhamente poupadas ao terror. Durante quantos dias ficámos naquele comboio? Quantas horas os meus pais passaram apertados um contra o outro? Imagino que a minha mãe devia ter-me bem encostada a ela para me proteger dos maus cheiros, dos gritos, do medo, que reinavam neste vagão lotado. Tinha de certeza compreendido que não íamos para um lugar seguro.
Pergunto-me onde estaria exatamente. No meio do vagão? O meu pai estaria junto dela? Ter-lhe-á dito que fosse corajosa? Terão falado do que iam fazer? Quando teriam tomado aquela decisão? Será que a minha mãe disse: “Desculpa. Desculpa. Desculpa.”? Terá aberto a custo um caminho por entre aquela mola humana até à janela do vagão? Terá murmurado o meu nome ao embrulhar-me num cobertor bem quente? Terá coberto a minha cara de beijos e dito que me amava? Terá chorado? Rezado?
Logo que o comboio abrandou, ao atravessar uma aldeia, a minha mãe deve ter espreitado pela fresta do vagão. Ajudada pelo meu pai, deve ter afastado o arame farpado que ocultava a abertura. Deve ter esticado os braços para a luz pálida do dia. A única coisa que sei com certeza foi o que aconteceu a seguir.
A minha mãe atirou-me pela janela do comboio. Atirou-me para cima de um pequeno quadrado de relva, junto de uma passagem de nível. Havia pessoas à espera de que o comboio passasse; viram-me cair do vagão de carga. No caminho que conduzia à morte, a minha mãe lançou-me à vida.
Alguém pegou em mim e levou-me para casa de uma mulher que se ocupou de mim. Que arriscou a vida por mim. Calculou a minha idade e atribuiu-me uma data de nascimento. Decidiu que me chamaria Erika. Deu-me um lar. Alimentou-me, vestiu-me, mandou‑me à escola. Fez tudo por mim.
Casei aos vinte e um anos com um homem maravilhoso. Ele aliviou muita da tristeza que me assaltava com frequência, percebeu o meu desejo de pertencer a uma família. Tivemos três filhos, que hoje têm os seus filhos também. No rosto deles, reconheço o meu.
Dizia-se outrora que o meu povo seria um dia tão numeroso como as estrelas do céu. Entre 1933 e 1945 caíram seis milhões de estrelas do céu. Cada uma delas corresponde a um membro do meu povo, cuja vida foi rasgada, cuja árvore genealógica foi arrancada. A minha árvore lançou raízes. A minha estrela ainda brilha.

Ruth Vander Zej/Roberto Innocenti
L’étoile d’Erika
Toulouse, Milan Jeunesse, 2000
(Tradução e adaptação)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

CONTO - AS ROSAS DOS MEUS TAPETES

As rosas dos meus tapetes
Para um jovem refugiado que vive com recordações de perda e de terror, o tempo é medido em termos do próximo balde de água, do próximo pedaço de pão, e da próxima chamada para a oração. Aqui, onde tudo — paredes, chão, pátio — é feito de lama, o coração de um rapazinho ainda consegue ansiar por liberdade, independência e segurança. E aqui, onde a vida é extremamente frágil, é a necessidade que cria a força para resistir. Mas a força para sonhar vem do interior.
É sempre o mesmo. Os jatos já me viram. Estou a correr demasiado devagar, porque tenho de puxar pela minha mãe e pela minha irmã. O terreno é traiçoeiro, cheio de crateras de bombas, e a minha mãe e a minha irmã impedem-me de avançar. Fui atingido em cheio. Quando estou prestes a morrer, ou pouco depois de ter morrido, acordo.
Abençoada escuridão. Demoro algum tempo a aperceber-me de que estou na nossa casa de lama, no campo de refugiados. A salvo. Ouço a respiração suave da minha mãe e da minha irmã perto de mim. Um galo canta. É madrugada. Talvez seja melhor levantar-me e ir buscar água antes que se forme uma fila junto ao poço.
Quando regresso com o balde pesado, vejo que a minha respiração forma nuvens. A asa de plástico crava-se na palma da minha mão e isso faz-me parar e descansar várias vezes. Quando chego a casa, lavo a cara. Um hábito inútil, já que aqui as paredes são de lama, o chão é de lama e até o pátio é de lama. É impossível mantermo-nos limpos.
Acordo a minha mãe antes de ir rezar à mesquita. Quando regresso, o pequeno almoço está pronto. Como a minha irmã Maha ainda está a dormir, como o meu pedaço de pão e bebo o meu chá sossegado. Depois, dou-lhe um beijo na cara e vou para a escola.
Quando regresso a casa para almoçar, a cabana já está varrida. Como devagar, cortando o pão em pedaços, para o fazer durar mais. A Maha engole a porção dela e olha fixamente para a minha.
— Não — diz a minha mãe com severidade.
Mas, quando ela vira costas, dou uns bocadinhos à minha irmã. Terei de apertar a minha faixa um pouco mais.
O muezzin volta a chamar para a oração. Saio para a rua estreita, esquecendo-me de ter cuidado. Um carro passa rente a mim e buzina com força. Neste lugar, as pessoas conduzem como se os demónios as perseguissem, sem prestar atenção a quem cruzam no caminho. Penso na Maha. Ainda bem que está a salvo em casa.
Depois das orações vem a minha parte favorita do dia. Vou aprender a arte de tecer tapetes. Quando teço, posso fugir dos jatos, dos pesadelos, de tudo. Como se, com as minhas mãos, criasse um mundo que a guerra não pode atingir. Um paraíso como aquele em que o meu pai está.
O meu pai era um agricultor, sempre à mercê do tempo ou de alguém que lhe viesse roubar a terra e as culturas. Mas eu hei-de ter uma arte que ninguém poderá roubar. Enquanto for forte e válido, a minha família nunca passará fome.
Primeiro, tenho de praticar. Alguém longe daqui possibilita a minha formação. Sou uma criança apadrinhada. Um filho adotivo. Até me tiraram uma fotografia. Em breve serei um mestre artesão e o dinheiro do meu padrinho já não será necessário.
Cada cor que uso tem um significado especial. Os fios que cercam a moldura na qual todos os outros fios são entrelaçados são brancos, como a mortalha em que embrulhámos o corpo do meu pai. O preto é para a noite que nos esconde dos olhos inimigos. O verde é a cor da vida. O azul é para o céu, que estará, um dia, livre de jatos. Como tudo no campo é de um castanho sujo, nunca uso o castanho nos meus tapetes.
A minha cor favorita é o vermelho. É a cor das rosas. Nunca cultivei flores. Cada pedaço de terra tem de produzir comida. Por isso, faço com que haja muitas rosas nos meus tapetes. Teço padrões intrincados de rosas, todos ligados entre si. Um jardim de beleza rodeado por uma fronteira, uma parede. Uma parede em torno de um pequeno pedaço de paraíso.
Estou tão concentrado a tecer que não ouço a respiração ofegante do rapaz que entrou na sala. É o silêncio que me desperta. Ergo os olhos e vejo toda a gente a olhar para mim. Aconteceu algo de terrível.
— É a tua irmã. Foi atropelada por um camião.
Ponho-me em pé de um salto e espalho mil fios pelo chão. Um amigo diz que os apanhará por mim. Agradeço-lhe com um aceno e corro pela porta fora. O rapaz diz-me que a Maha está na clínica e que a minha mãe está com ela. Estão a operá-la para tentar salvar-lhe as pernas. Quando chego à clínica, a minha mãe está histérica, porque quer ir ter com a filha. Há pessoas que a impedem e oiço gritos. São os meus gritos. A minha mãe vira a cabeça e o seu olhar é quase desumano. Como quando o meu pai morreu.
Tenho de ser forte. Não posso chorar. Com gentileza, afasto-a um pouco, dizendo-lhe que pode atrapalhar. As minhas palavras surtem efeito. Coloca a cabeça no meu ombro e dou-me conta do quanto cresci. É uma altura estranha para reparar em coisas como esta. Peço à minha mãe que vá para casa e que reze pela segurança da Maha. Quando houver notícias, irei dar-lhas. Como não consigo ficar quieto, ando de um lado para o outro. Depois rezo, lembrando-me do conselho que dei à minha mãe. Rezo pela Maha e pela minha mãe. Depois rezo pelo meu padrinho que paga a operação da minha irmã e nem sequer o sabe. Sinto-me melhor depois de rezar.
O médico aparece finalmente, com um olhar cansado. As notícias são boas: a minha irmã vai ficar bem. Tem as pernas partidas, mas vai conseguir andar de novo. Não em breve, mas um dia. Um sentimento de alívio inunda-me a face como chuva bem-vinda. Corro para casa para contar as novidades à minha mãe, que chora de alegria. Jantamos pão e água. A minha mãe corta o pão em três pedaços antes de se lembrar de que hoje somos só dois. Dá-me a parte da Maha e eu devolvo-lhe metade. Comemos em silêncio. Cada bocadinho de pão atravessa-se na minha garganta e não há água que chegue para ajudar-me a engolir.
Exausto, deito-me no tapete de palha que faz de cama. Sem a Maha, a casa está demasiado silenciosa. Tenho muitas saudades dela e fico acordado durante muito tempo. À noite, quando sonho, sonho novamente com jatos a rasgar o tecido do céu. Mas, desta vez, a minha mãe e a minha irmã correm comigo e não me detêm. Porque, ao correr, encontramos um espaço, do tamanho de um tapete, onde as bombas não nos podem atingir.
E dentro desse espaço há rosas.
Rukhsana Khan
The Roses in my Carpets
Ontario, Fitzhenry & Whiteside, 2004
(Tradução e adaptação)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Portuguesa ajuda a descobrir 'novo mundo'

http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=2221642

FRASE DO DIA

"Parecer o que se é, é um crime; parecer o que não se é, um sucesso"
Girardin, (Madame Émile)

O canhão da paz
Vivia na longínqua Rússia um famoso fundidor de sinos chamado Sergei Vassilevitch Varbaratov. O som dos seus sinos era de tal forma harmonioso que, sempre que tocavam, até os anjos paravam para os escutar.
Sergei Vassilevitch era casado com uma mulher alta e robusta de nome Natalia Sofia e tinham dois filhos. Um chamava-se Leonid Michail e era um rapaz de boa índole. Ainda muito novo, já ajudava na oficina. Em pouco tempo passou a conhecer todos os segredos da arte da fundição de sinos. O outro filho, Vladimir Nikolai Varbaratov, era, no entanto, uma criança singular. Fugia da oficina do pai, metia o nariz em livros poeirentos, misturava-se com os criados e criadas, e fazia todo o tipo de experiências com flores, ervas e verduras nos terrenos do pai. “Se fosse alto e forte como o irmão,” suspirava o pai, “ainda podia comprar-lhe uma quinta para ele ganhar a vida…”
Porém Vladimir Nikolai não era alto e forte, mas de compleição frágil, e em nada se assemelhava a um agricultor. Não sabendo o que fazer com o filho mais novo, o pai elevava muitas vezes os olhos ao céu e exclamava:
— Só Deus sabe o que há-de ser do rapaz!
— Santa Bárbara, intercede por ele — acrescentava a mãe, dirigindo-se à padroeira dos sineiros.
Assim ia passando o tempo, e as preocupações de Sergei Vassilevitch cresciam de ano para ano. Certo Inverno, um enviado do Czar chegou a casa de Sergei Vassilevitch: este deveria apresentar-se sem demora no castelo. “De certeza que se trata de uma encomenda para um novo sino”, pensou Sergei Vassilevitch. Satisfeito, vestiu a sua bela pele de marta e seguiu no trenó rumo a Moscovo, onde o Czar o esperava em pessoa. Mas desta vez não se tratava de um sino. Pelo contrário, o Czar referiu-lhe um grave problema: os Tártaros atacavam constantemente as aldeias fronteiriças, pilhavam os campos e as pessoas.
— Estão cada vez mais ousados — rugia o Czar. — Não sei como proteger o meu reino.
— A minha arte também não é de grande ajuda neste caso, Meu Senhor — disse Sergei Vassilevitch. — Os sinos anunciam a paz e não a guerra.
— Tens razão — admitiu o Czar — mas diz-se por todo o país que ninguém sabe tanto da arte de fundir metal como tu. Peço-te que me faças um canhão tão grande e poderoso que nenhum na Terra se lhe iguale. Quero colocá-lo no vale por onde entram os Tártaros. Há-de estrondear como um trovão e, como um raio, derrubar os inimigos. À vista das suas balas, os Tártaros serão obrigados a fugir de volta para as montanhas.
— Nunca fiz nenhum canhão, Meu Senhor — objectou a medo Sergei Vassilevitch.
A hesitação do fundidor de sinos não agradou ao Czar.
— Mas posso tentar, seja lá como for — acrescentou Sergei rapidamente ao ver a expressão de descontentamento do Czar.
Passou semanas e semanas a fazer planos juntamente com o filho mais velho. Quando a Primavera chegou, estava preparado. O molde de barro foi cozido e acendeu-se o forno. O minério estava pronto para ser derretido. No dia da fundição, o Czar veio pessoalmente na sua carruagem doirada, acompanhado por alguns generais, ver o que Sergei Vassilevitch projectara.
Com enormes caçarolas verteu-se para dentro da forma uma grande quantidade de minério. Os gases sibilavam ao sair pelas aberturas do cano. Finalmente, ao cabo de muitas horas, o metal arrefeceu e o molde foi cuidadosamente partido. Apareceu então o maior e o mais impressionante cano de canhão que o mundo alguma vez vira. A superfície estava coberta com as mais esplêndidas figuras em relevo. O Czar apreciou minuciosamente aquela obra de arte. O que maior admiração lhe causou foi a imagem de Santa Bárbara. Desenhada na parte de trás do cano, com uma das mãos apoiava-se numa torre, enquanto na outra segurava um ramo em flor.
— Se o canhão não fosse tão urgente por causa da ameaça dos Tártaros — disse o Czar — só por esta imagem de Santa Bárbara teria um lugar de honra no meu castelo. Será baptizado com o nome de Canhão de Santa Bárbara.
— Isso não vai agradar muito a Santa Bárbara, que bem sabe como são amargas as guerras e as mortes violentas — não pôde deixar de murmurar Natalia Sofia.
O cano foi içado com um guindaste e fixado à carreta, à qual foram atrelados dezasseis fortes cavalos, que só ao fim de grande esforço conseguiram pôr aquele monstro em andamento. O Czar voltou-se para Sergei Vassilevitch e disse:
— És um grande mestre da fundição, Sergei Vassilevitch Vabaratov. Criaste uma obra magnífica, por isso quero satisfazer um desejo teu. O que desejares, ser-te-á concedido.
Sergei Vassilevitch reflectiu longamente. O olhar poisou no filho mais novo, Vladimir Nikolai, discretamente afastado.
— Meu Senhor, agradeço-vos essa mercê. Tenho, de facto, um grande desejo. O meu filho Vladimir Nikolai, que ali vedes, não é dotado para a fundição. Não sei bem o que fazer com ele, o que me causa muita pena e aflição. Se o tornásseis coronel do canhão de Santa Bárbara e dos artilheiros, retirar-me-íeis um grande peso.
Os generais que acompanhavam o Czar riram-se daquele desejo.
— O prometido deve ser cumprido — disse no entanto o Czar.
E Vladimir Nikolai foi vestido com um faustoso uniforme e calçado com macias botas de couro. Montado no seu cavalo malhado, parecia mesmo um pequeno coronel. Por sorte, pertencia ao grupo dos artilheiros um velho cabo experiente que percebia do ofício. O canhão foi posto em andamento juntamente com setenta e sete pesadas balas e dois carros a abarrotar de sacos de pólvora. Vladimir Nikolai não se voltou para os pais uma única vez, para que não lhe vissem as lágrimas.
A Rússia é um país vasto como o céu. Só ao fim de muitas semanas é que o grupo chegou com o seu pesado canhão ao vale por onde os Tártaros costumavam passar quando invadiam o país. O canhão foi colocado numa colina suave no meio da erva. Reinava lá do alto como um violento dragão feroz, cintilando ao sol. O cabo mandou construir uma sólida torre onde armazenou os sacos de pólvora e as setenta e sete balas de canhão. Também colocou vigias para darem sinal no caso de se aproximarem grupos de Tártaros.
Vladimir Nikolai não mostrava grande interesse por todas aquelas coisas. Caminhou em volta do canhão, desfazendo a terra escura com os dedos enquanto murmurava para si:
— A terra está repousada e é boa. É terreno ideal para trigo doirado.
Ocasionalmente aparecia um Tártaro, e por vezes dois ou três, montados num pequeno cavalo. O cabo achava, que por tão poucas pessoas, não valia a pena carregar o canhão. Em vez disso, preferia exibi-lo, vangloriando-se:
— Com um único tiro, o canhão de Santa Bárbara mata uma centena de pessoas, ou mais.
Mandou trazer da torre uma das setenta e sete pesadas balas para que a admirassem e lhe tocassem. Os Tártaros, no entanto, não se atreviam a aproximar-se do canhão. Aquela arma admirável impressionava-os imenso e nas suas tendas relatavam pormenorizadamente o que viam. Naquele ano não houve um único ataque em toda a região. Entretanto, os soldados de artilharia tinham cavado uma fonte, construído casas de madeira com cercas coloridas em redor. Embora continuasse a brilhar como ouro puro, o canhão era limpo uma vez por semana. Finalmente todos os trabalhos terminaram. Os artilheiros deitavam-se preguiçosamente ao sol e alguns já tinham ganho barriga. Os dezasseis cavalos também se tinham tornado mais redondos, pesados e preguiçosos.
O Inverno chegou. De repente, Vladimir Nikolai começou a andar numa azáfama. Na aldeia mais próxima encontrara um bom ferreiro ao qual mandou fazer sete arados a partir de sete balas. Para avivar o fogo da forja, o ferreiro espalhava ocasionalmente alguma pólvora pelas chamas, mas apenas o suficiente para não fazer a casa ir pelos ares. O cabo autorizara: setenta balas continuavam a ser suficientes.
Assim que a Primavera afastou o Inverno, Vladimir Nikolai arrancou os soldados da vida ociosa que levavam. Mandou-os atrelar os arados aos cavalos e arar a terra que se estendia até perder de vista. A maioria dos soldados tinha nascido no campo e sabia abrir sulcos em linha recta. A mando do Coronel, espalharam sementes de grãos de trigo cuidadosamente escolhidas. Ao fim de pouco tempo, o canhão encontrava-se no meio de uma ondeante e loura seara. O tempo ajudou Vladimir Nicolai. Em finais de Agosto já a colheita estava concluída e o grão malhado. Mas onde guardar tão abundante colheita? Sem hesitar, Vladimir Nicolai mandou retirar todas as balas da torre e guardou os sacos de pólvora numa barraca de madeira. Em seguida, fez armazenar o cereal na torre.
Os Tártaros vinham cada vez com mais frequência. Durante todo o ano tinham observado o que os soldados faziam. Vladimir Nikolai foi afável. Ofereceu-lhes trigo, pois a colheita fora tão grande que nem em três anos os soldados e os dezasseis cavalos a consumiriam.
— Não querem também semear algum grão? — perguntou certo dia Vladimir Nikolai aos Tártaros que tinham ido buscar alguns sacos de cereal.
— Vamos perguntar — e saíram a galope.
Um dia mais tarde, chegaram muitos desconhecidos montados nos seus pequenos cavalos. O Cabo deu ordem para se carregar o canhão a toda a pressa. Mas, na barraca, a pólvora humedecera e o canhão nunca daria tiro algum. Também não foi necessário. O Príncipe dos Tártaros cavalgava no meio da sua multidão de aparência selvagem, magnificamente vestido com peles e trazendo ao pescoço uma corrente de garras de urso.
Vladimir Nikolai recebeu-o amavelmente, ofereceu-lhe um copo de vinho e perguntou:
— Então, o que tencionam fazer? Também vão arar a terra, semear e colher?
— Gostaríamos de cultivar a terra mas não podemos fazê-lo com as mãos. Não temos arados nem sementes — respondeu o Príncipe Tártaro.
— Isso resolve-se depressa. — prometeu Vladimir Nikolai.
Mandou fundir quarenta e nove balas para fabricar arados. “Agora só fico com vinte e uma balas de canhão e nem uma migalha de pólvora seca,” pensou o cabo, muito preocupado. “Esperemos que os Tártaros não nos ataquem.” Os Tártaros nem em tal pensavam. Na Primavera, começaram a arar e a semear, e finalmente puderam colher o seu próprio cereal. Mas nas suas tendas não havia lugar para tantos sacos de grão e começaram a construir casas sólidas. Vladimir Nikolai deu ordem aos soldados para os ajudar. Os soldados acabaram por reconhecer que os Tártaros não eram tão assustadores como tinham pensado. Alguns chegaram até a casar-se com bonitas mulheres tártaras.
— Porque é que assaltavam as aldeias? — perguntavam de vez em quando os soldados.
— Foram a fome e a necessidade que nos obrigaram — responderam.
E alguns confessaram que fora também o gosto pela aventura.
Ao fim de três anos, o Czar enviou um mensageiro. Vladimir Nikolai Varbaratov foi promovido a general e recebeu uma medalha de ouro, pois durante todos aqueles anos não chegara a Moscovo uma única queixa de ataques por parte dos Tártaros. Mais tarde, o Czar ordenou que o canhão de Santa Bárbara fosse levado para o seu castelo, onde ainda hoje pode ser visto. Os artilheiros escolheram então Santa Bárbara para sua padroeira, pois um canhão que nunca tenha de disparar balas é o sonho de paz da maioria dos soldados…
O Czar chamou Vladimir Nikolai à corte e nomeou-o seu conselheiro.
Sergei Vassilevitch Varbaratov e a esposa, Natalia Sofia, estavam felizes com os dois filhos e não sabiam de quem estar mais orgulhosos, se do robusto fundidor de sinos, Leonid Michail, se do inteligente fundador da paz, Vladimir Nikolai.

Willi Fährmann
Folget dem Stern
München, Omnibus, 2004
(Tradução e adaptação)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A COLEÇÃO DE JOE CARROT VAI FAZER FUROR

CONTO DE ANO NOVO

MAMADOU SORRI ENQUANTO BEBE UMA CHÁVENA DE CHÁ
Fazia-se tarde. O Ano Novo levantou-se, nervoso, e procurou recompor-se a toda a pressa. Como se descuidara tanto? Como fora capaz de deixar o tempo passar assim? Agora, antes de partir, tinha de verificar se tudo estava no seu lugar. Muitas coisas dependiam do seu cuidado.
Apalpou bem o corpo todo e viu que o Outono estava onde sempre esteve, que os álamos sem folhas de janeiro tiritavam de frio, junto ao ribeiro do vale, e que a erva brotava no prado onde, na primavera, o vitelinho iria provar o seu sabor acre pela primeira vez.
Não havia um instante a perder!
Alinhou as florestas, inspecionou os desertos, reviu os oceanos e retocou, com carinho, o bando de pássaros que, no dia 4 de maio, iria pousar no arame com mofo daquela cerca. Tudo estava pronto exceto ele, que estava atrasado! Sabia bem que, se não chegasse a tempo do encontro com o Ano Velho, o tempo ficaria parado e o ano que agora principiava ficaria todo baralhado.
Ainda não tinha saído quando sentiu um olhar cravado no seu rosto. Apercebeu-se de que alguém o fixava, de que uns olhos pequenos se cravavam com força nos seus, muito maiores. O Ano Novo estava com muita pressa, mas não teve outro remédio senão parar e virar-se para trás. Mas onde procurar?
Examinou a África, que, agora, por alturas de junho, se encontrava entre um resto de savana ressequida e o início da época das chuvas, este ano um pouco atrasado. E foi lá que viu um menino a olhar para ele, deitado no chão, sem forças para continuar a respirar. Junto dele estavam outras crianças, algumas já de olhos fechados. Perto dali havia tendas de campanha, médicos em rebuliço a calcorrear o pó de um lado para o outro, ouviam-se choros, gritos e via-se uma bandeira com uma cruz vermelha engelhada.
Uma médica, ainda nova, olhava para a criança estendida no chão e, com um gesto de resignação, tomava-lhe o pulso.
— Já não vamos a tempo — disse para o enfermeiro.
— O pai dele morreu, mal aqui chegou — respondeu este.
Ambos evitavam olhá-lo nos olhos e, por isso, a criança olhava para o Ano Novo insistentemente, como se esperasse dele alguma resposta. Mas o Ano Novo não se lembrava de nada e as passadas do Ano Velho soavam já do outro lado das doze badaladas!
Contudo, quando o Ano Novo olhou outra vez para Mamadou — assim se chamava o menino — suspirou. E, enquanto corria para o encontro marcado, o seu suspiro condensou-se em forma de nuvem. O vento pegou nessa nuvem e empurrou-a pelos corredores frios do firmamento. As estações do ano discutiram um pouco até decidirem colocar a nuvem no dia certo. Por fim, o suspiro tornou-se chuva, que começou a cair no campo de milho que o pai de Mamadou iria finalmente colher. O Ano Novo sabia que esse punhado de grão pouco era. Sabia que o pai de Mamadou iria morrer mal chegasse ao campo de refugiados e sabia que Mamadou veria o seu corpo estendido.
Mas, graças a esse pouco milho de maio, Maria pôde dizer ao enfermeiro:
— Depressa! Ainda vamos a tempo.
E o Ano Novo acabou por ver um brilho nos olhos azuis da médica.
E eu, que acabo de escrever isto, e que sei que o Ano Novo chegou a tempo de encontrar o Ano Velho e que, por isso, este ano não conhecerá nenhum desacerto, sorrio enquanto Maria e Mamadou tomam chá a meu lado. Mamadou ainda fala mal espanhol, mas parece compreender tudo. Maria, a sua nova mãe, diz-lhe algo engraçado e Mamadou sorri, enquanto bebe uma chávena de chá.

José Zafra, Ana Garralón
El gran libro de la Navidad
Madrid, Anaya, 2003
(Tradução e adaptação)